Entrevista

"O São Jorge é um filme muito abrangente"

O ator é protagonista do filme São Jorge, de Marco Martins, com estreia prevista nas salas de cinema a 9 de março. Jorge é um pugilista desempregado que luta contra o desespero, para manter o filho junto dele, e que a mulher não regresse ao Brasil, aceitando um trabalho numa empresa de cobranças. Para a construção da personagem, Nuno Lopes fez pesquisas em bairros sociais, treinou boxe e ganhou peso (20 quilos). Teve um treino intenso para aprender técnicas de combate, durante cerca de seis meses.

 

Foi muita expiração, [em vez de inspiração, como defendia Jean Cocteau], no seu caso, também associada a transpiração... Que memórias guarda desse período?

Guardo várias memórias. Ainda no outro dia fiz uma produção de moda com o Marco Martins em que me vestiram de boxeur, e foi incrível, porque mal comecei a pôr as ligaduras, de repente o meu corpo transformou-se no corpo do Jorge. Tenho uma memória física muito forte, devido ao facto de ter treinado cinco horas por dia, durante quase seis meses. Há uma memória muito física do filme. Depois há uma memória destes cinco anos de trabalho, desde a ideia, à pesquisa, de todas pessoas com quem falámos. Acabámos por conhecer um outro Portugal e outras famílias, não só a família do boxe, que é muito particular e surpreendente. Ao contrário do que se pensa, é uma família muito mais unida e menos violenta e mais amigável do que é de esperar. E também as famílias que vivem nos subúrbios de Lisboa, que visitámos praticamente todos. Tenho a memória desse tempo que passámos na pesquisa, e a quantidade de pessoas que conhecemos, que muitas delas fazem de personagens no filme, mas algumas não estão no filme e são quase tão importantes como as que estão.

Essa memória física tão forte foi algo que o surpreendeu?

Sim. Quando deixo uma personagem, sobretudo personagens de cinema, aconteceu-me com Alice, São Jorge e com outros, o que sinto sempre é que, como é um trabalho muito intenso de preparação, pesquisa e de estar todos os dias a viver com aquilo, levo muito mais vezes a personagem para casa... Quando me despeço das personagens do cinema, ao contrário do teatro, em que as personagens morrem, é como se continuassem a viver e eu é que sigo outro caminho. Por isso foi engraçado quando pus as ligaduras, de repente percebi que o Jorge tinha voltado. Isso foi muito surpreendente.  

Que significado tem na sua carreira trabalhar novamente com o realizador Marco Martins?

Começámos a trabalhar no [filme] Alice, onde fui escolhido através de casting, foi quando conheci o Marco Martins, e percebemos que temos o mesmo tipo de gostos, que queremos falar mais ou menos das mesmas coisas.

Têm cumplicidade artística...

Cumplicidade artística e cumplicidade pessoal também. A seguir ao Alice resolvemos criar um grupo de teatro, o Arena Ensemble, com Beatriz Batarda, para nos obrigar de alguma maneira a trabalhar juntos. Com este grupo já fizemos cinco ou seis peças em conjunto, muitas delas encenadas pelo Marco Martins. Na verdade, desde Alice não parei de trabalhar com o Marco. É uma continuidade de trabalho. A única coisa diferente é que é o regresso ao cinema. E isso foi uma alegria. Filmar com o Marco é uma experiência dura, mas libertadora. Ao contrário daquilo que se diz dos realizadores, que sabem exatamente o que querem, o Marco Martins tem a grande vantagem de não saber exatamente o que quer.

Dá grande liberdade...

Dá-nos muita liberdade. E, sobretudo, discute muito os projetos connosco. O São Jorge foi construído desde o início comigo, portanto sinto que não participo no projeto só como ator. É um projeto meu também. No São Jorge toda a construção foi feita comigo, desde ideias para a história, pesquisar os locais de filmagem, escolher casting. Ao contrário dos outros filmes, não me lembro do primeiro dia de rodagem, porque não teve essa importância, porque não foi naquele momento em que comecei a trabalhar. Há cinco anos que estávamos a trabalhar e, de repente, estávamos a filmar. Era mais um dia de trabalho. Foi muito importante esta colaboração. O Marco tem esta vantagem, quando digo que ele não sabe exatamente o que quer, é um realizador muito instintivo, há qualquer coisa de vital na maneira como o Marco filma. Todos os momentos são passíveis de mudança. Em todas as etapas do processo de fazer um filme há liberdade criativa, não há predefinição do que se quer ver. É muito agradável trabalhar com o Marco nesse sentido, é duro, é difícil, porque nunca estás seguro, nunca tens um momento em que dizes: ‘Ok. Já sei exatamente o que vou fazer.’ Havia um ator que dizia: “As pessoas não sabem, mas quando estão a filmar com o Marco Martins, na verdade ainda estão a fazer o casting.”

O filme fala de pessoas que habitam em bairros sociais da margem Sul de Lisboa, que enfrentam os pesadelos do desemprego e precariedade devido às políticas de austeridade. Pessoas com aspirações por uma vida que as trate melhor. Em que país é que vivemos?

Agora acho que vivemos num país onde já existe uma luz ao fundo do túnel, em comparação ao momento que é retratado no São Jorge. Lembro-me perfeitamente de estar de carro com o Marco Martins, para procurar locais de filmagem, do outro lado do rio, onde as pessoas vivem mal, muitas delas quase passam fome, e de estar a ouvir na rádio que “andávamos a viver acima das nossas possibilidades”... Havia qualquer coisa que não fazia sentido nestas duas realidades. Essa foi a grande motivação para construir o filme. Começou por ser um filme de boxe, mas a crise entrou pelo filme adentro. Era impossível falar de outra coisa, que não da crise e das políticas de austeridade que o governo PSD e CDS estava a fazer naquela altura. Isso tinha um impacto tão grande na vida das pessoas que nós não conseguíamos fazer pesquisa sem falar disso. Quando dei a ideia ao Marco de fazer um filme sobre boxe, em parte tinha esta ideia de uma pessoa que luta literalmente pela vida. Em Portugal, ao contrário de outros países, em que és campeão e ficas multimilionário, isso não existe. Em Portugal um campeão ganhará uma miséria. Esse país entrou pelo filme. E era do que queríamos falar. As políticas estão a mudar ligeiramente. Ainda não estamos num sítio feliz, mas há luz ao fundo do túnel, pelo menos.

Ainda há esperança num futuro melhor?

Há alguma. Quando de repente temos um governo que começa a mudar as políticas sociais por uma coisa mais justa, e que tenta terminar com a austeridade, no momento em que Trump está a fazer a sua tomada de posse, a Le Pen pode ganhar em França... Portugal tem a sorte de estar num momento ao contrário do resto do mundo. Aqui há uma luz ao fundo do túnel, na maior parte dos países acabaram de entrar no túnel.

São Jorge teve estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza, onde foi distinguido com o prémio especial de melhor ator, na Secção Orizzonti. Quando recebeu o galardão dedicou-o às pessoas dos bairros da Bela Vista e Jamaica... Considerou-os os “verdadeiros heróis”. O que de mais importante aprendeu com eles?

É-me difícil falar deles, na verdade. É uma memória emocional. Quando disse que eram os meus heróis, são verdadeiramente, porque a sua vontade de seguir em frente, a vontade de ajudar o próximo... Dando um exemplo, eu ia para o bairro muitas vezes vestido de personagem. Havia um dos moradores do bairro que nunca percebeu que eu era ator, deixei que isso continuasse assim porque queria ter uma reação normal, como se eu fosse o Jorge. Ele trabalha como sucateiro, apanha coisas do lixo para vender, e de repente, propunha arranjar-me trabalho a seguir ao filme. Lembro-me que uma vez olhou para os meus ténis (uns ténis horríveis de personagem) e disse-me: “Se calhar consigo arranjar-te uns ténis melhores.” Esta generosidade vinda de pessoas que não têm nada, literalmente nada, é muito tocante. É muito tocante, sobretudo a persistência e a coragem que as pessoas têm, de não tendo nada, continuar a acreditar, continuar a lutar e continuar esperançosas, sobretudo na Bela Vista porque é uma experiência social falhada... Vivendo num sítio assim, e nas condições em que vivem, é muito gratificante perceber que essas pessoas conseguem ter esperança e que conseguem ser generosas. E isso é uma lição.

No seu discurso, em Veneza, chamou a atenção desta Europa “cobradora de dívidas”, como referiu, para que olhe menos para os números e mais para as pessoas. A mensagem política do filme despertou-o para alguma tomada de posição que não tinha pensado antes?

Não, isso já existia em mim. Sou um cidadão e gosto de perceber politicamente o que se está a passar no nosso país. Muitas vezes não expresso a minha opinião porque acho que não é o meu lugar. O lugar da cultura não tem a ver com poder, tem a ver com antipoder. Muitas vezes gosto de estar afastado, mas estou atento sempre. Aliás, a prova disso é que criámos o São Jorge. Em relação ao discurso em Veneza, achei que era fundamental ter um discurso político. Estava num festival, em Itália, onde há um problema com os refugiados gigante, que a Europa tenta ignorar. Estava num festival de primeiro mundo, com barreiras de cimento ‘antiautocarros’ desgovernados do ISIS, escondidas por placards [cartazes do festival]... Senti que tinha de fazer um discurso para dizer ‘atenção, não está tudo bem como parece’. Há uma diferença enorme entre a arte e entretenimento. E o festival de cinema de Veneza supostamente é sobre arte, e a arte tem de estar atenta ao mundo. Todos os festivais, Veneza, Cannes, deviam ter um papel importante na crítica em relação ao que se está a passar no mundo e na Europa, em particular. Fiquei muito contente que o [filme] I, Daniel Blake, de Ken Loach, tenha ganho em Cannes, porque é uma tomada de posição: ‘Atenção, nós estamos atentos ao que se passa na Europa. Estamos atentos ao que estamos a viver. E estamos contra’.

Depois seguiram-se mais apresentações em festivais, entre outros, Chicago, São Paulo, Estocolmo, Macau... Os prémios internacionais são fundamentais antes da estreia em Portugal?

Espero que ajudem, sobretudo, a que as pessoas vão ver o filme. Infelizmente, não devia ser necessário. Temos milhares de filmes antes do São Jorge e milhares de interpretações e que são tão meritórias de um prémio, ou mais ainda, do que a minha. Se calhar foram filmes pouco vistos porque não ganharam prémios lá fora. É uma pena. O cinema português está agora na moda, com Miguel Gomes, João Pedro Rodrigues... Finalmente a Europa começa a olhar para o cinema português duma maneira diferente, mas os realizadores que estão a aparecer agora não são génios em relação aos que já existiram no passado. Já tivemos tão bons ou melhores no passado, Manoel de Oliveira, João César Monteiro, José Álvaro Morais... Há uma data de exemplos de realizadores e atores extraordinários que tivemos no cinema. Infelizmente não foram muito vistos em Portugal. Temos este problema de separação entre o cinema português e o público. Espero que o São Jorge ajude, nem que seja minimamente, a resolver porque é um filme que fala muito sobre uma realidade que é conhecida de toda a gente. Qualquer pessoa que tenha vivido em Portugal nos últimos quatro anos, ou que tenha sido obrigada a emigrar, por causa da política de austeridade, vai rever-se de certa forma. O São Jorge é um filme muito abrangente. Espero que ajude a colmatar essa distância que existe entre o público e o cinema português.

Acha que em Portugal não se ama muito o teatro e o cinema, ou são outros amores que ocupam os corações dos portugueses e depois sobeja pouco para estas artes?

Acho que começa logo por uma questão política. A cultura em Portugal não tem sequer 1% do Orçamento de Estado (OE). Acho que começa tudo aí. É como a Educação, desde que passámos a ter escolaridade obrigatória até ao 9.º ano, passámos a ter muito menos analfabetismo. Tem de haver vontade política. Infelizmente essa vontade ainda não existe em números suficientes. É ridículo que no nosso país a cultura tenha 0,4% do OE, quando temos exemplos de que a cultura portuguesa não só vinga cá dentro, como vinga lá fora. O número é ridículo, até custa falar... E ainda assim existem pessoas que vêm com o discurso dos subsídiodependentes, como se cuidar da cultura e oferecer cultura ao público, pensando no público, não fosse uma obrigação e um dever do Estado.

Na primeira edição do festival de Macau recebeu o prémio de melhor ator, [também Marco Martins venceu o prémio de melhor realizador]. O filme será distribuído comercialmente na República Popular da China. Que importância atribui ao facto dos espectadores asiáticos poderem ver este filme?

É muito engraçado o filme ser distribuído num país que nunca visitei. Um dos júris do festival de Veneza, que falou comigo depois da atribuição do prémio, veio dizer-me que havia membros do júri da Ásia que não faziam a mínima ideia do que se estava a passar na Europa. Nós sempre quisemos fazer o filme para levar a voz dessas pessoas, que passaram o que passaram durante a austeridade, lá fora. Se mais pessoas os ouvirem, tanto melhor para nós, pode ser que alguma coisa mude, por lá e por cá. Nesse sentido, quantas mais pessoas virem o filme melhor é para nós. A China tem um nível de desemprego ridículo, comparado com o nosso. Vai ajudá-los a perceber do outro lado do mundo o que se anda a passar por cá.

Iniciou a carreira há 20 anos, no espetáculo Os Sete Infantes (Lenda dos sete infantes de Lara), no Teatro da Cornucópia. Foi naquele palco que levantou as asas da juventude... Trabalhar com o ator e encenador Luis Miguel Cintra foi determinante na sua formação. Porquê?

O Luis Miguel Cintra ensina-me não só a representar, como a perceber como se tira a personagem do texto, como aprender a respeitar esse texto, como também me ensinou uma ética profissional. Quer seja através dos ensinamentos que ele me foi passando, quer seja do exemplo que ele próprio é para mim, passou-me uma ética profissional da qual me lembro todos os dias e que tento seguir à letra. É uma pedra basilar na minha formação não só como ator mas também como homem.

E sente-se grato por isso...

Muito, muito grato. Se sou alguma coisa de jeito, hoje, é graças a ele. Ainda no outro dia, em que a Cornucópia fechou, escrevia sobre isso: ‘tenho muitos defeitos, mas as poucas qualidades que tenho, foi lá que as aprendi’. Eu estou-lhe grato e as pessoas que me conhecem também.

Que importância tem para as várias gerações de espectadores conhecer peças de Gil Vicente, Shakespeare, Racine, Molière?

Acho que não se deve construir o futuro sem conhecer o passado. Revisitar os clássicos parece-me uma coisa fundamental. O conhecimento das grandes obras literárias faz-nos olhar de uma maneira diferente para o futuro. E faz-nos construir coisas novas de outra maneira, mais certa, mais assertiva em relação ao que se passou e ao que queremos que se vá passar. Agora estou a fazer A Noite da Iguana, de Tennessee Williams, com Jorge Silva Melo e os Artistas Unidos, e no outro dia uma pessoa dizia-me: “não conhecia este texto e o tema interessa-me tanto”. É uma pena que textos como este, não sejam vistos e postos em cena mais vezes.

Nuno Lopes, o “Chato” da série televisiva “Os Contemporâneos”, que aos convidados, Camané, Zé Pedro [Xutos], entre outros, dizia “vai mas é trabalhar”, mas ele não fazia nada... Não tem parado. O ano passado fez um filme no Brasil, há pouco tempo participou num filme francês, em Marselha, recentemente subiu ao palco de um teatro de Lisboa. Não há ninguém que lhe diga: Vai mas é descansar? 

Sou o primeiro a não dizer isso. [risos] Odeio estar de férias. Preciso de férias constantemente, todos os dias penso: ‘eu devia ter férias, eu devia tirar férias’. Porque tenho trabalho acumulado e estou sempre numa correria de um lado para o outro. Todos os dias penso nisso, mas, na verdade, assim que tiro férias ao fim de dois dias digo: ‘e agora o que é que eu faço?’ [risos]. Eu gosto mesmo é de trabalhar.

Tem dificuldade em aproveitar os tempos livres?

Sou daquelas raras pessoas que tem a sorte de fazer exatamente o que gosta. Isto é o que eu gosto mesmo de fazer. Se me perguntares: ‘o que é que gostavas de fazer?’ Era isto! Se estiver de férias e me disserem assim: ‘olha, vamos ensaiar aqui esta peça’. Eu vou. Acontece-me muito, em férias, assistir a ensaios de amigos. Tanto pelo lado de ator, como pelo lado DJ, são duas coisas que eu gosto mesmo de fazer. Se estiver parado é isto que vou querer fazer, portanto, na verdade, estou de férias.

Teresa Joel