Ficções

Nem sempre as árvores morrem de pé

Eram adolescentes saboreando o sol da Primavera em dois bancos vizinhos do castanheiro bravo que se impunha num jardinzinho da cidade. Ele entretinha-se a dedilhar no telemóvel, ela lia um romance. Não se olhavam, eram simplesmente dois desconhecidos, com intenção de deixar de o ser.

A meio da manhã ela fechou o livro e levantou-se, prenúncio de retirada, e ele desviou os olhos do visor do telemóvel. Reparou, então, que ela deixou os óculos de sol esquecidos sobre o banco, chamou:

– Menina...! Menina!

Ela dera já meia dúzia de passos e continuou a andar, desatenta de que o chamamento lhe era dirigido até que a voz dele soou mais próxima:

– Menina, menina!

Virou-se, então, e os olhos encontraram a figura do rapaz, agitando os óculos e sublinhando o evidente:

– São seus, não? Deixou-os ali...

Surpresa e agradecimento uniram-se no sorriso que iluminou o rosto bonito da jovem:

– Ai a minha cabeça! Agradeço-lhe muito.

– De nada – disse ele afastando-se sem se afastar dela e aperceberam-se que seguiam na mesma direcção.

 – Vou para o metro.

 – Coincidência, também eu. Espero não voltar a esquecer-me dos óculos, do livro, ou mesmo da carteira onde guardo o passe. Sou muito distraída.

 – Sinal de que pensa – ripostou ele. – Quando os pensamentos andam por longe nem cuidamos do que temos perto. Também eu sou distraído, até o telemóvel e as chaves de casa deixo nas mesas dos cafés, uma vez deixei um computador portátil no chão, precisamente junto do banco onde me encontrava agora. Gosto do lugar, tornei-me amigo daquela árvore que nem sei que nome tem.

Ela riu-se:

 – Castanheiro bravo. Foi o que me ensinou um homem de idade avançada e com cara de conhecedor. E mais: que se trata de uma raridade nos jardins de cidade e, ao contrário do castanheiro manso, não é pródigo a dar frutos. Este deve ter, no mínimo, um século de vida. Foi a informação que recebi e também sou amiga deste castanheiro.

Tinham entrado no túnel do metro, ele hesitou antes de perguntar:

 – Para que estação vai?

 – Restauradores.

Foi a vez de ele se rir com gosto:

 – Outra coincidência. Também vou para os Restauradores e estarei atento para que não se esqueça de nada no comboio. Já agora, permite-me outra pergunta?

 – Pergunte.

 – Como se chama?

 – Bruna. E tu? Desculpa o tratamento mas não tolero o você...

 – Nem eu. E ficas a saber que o meu nome é Renato.

 – Ficamos apresentados e espero reencontrar-te no jardim do castanheiro bravo.

– É muito possível, sou frequentadora.

Assim aconteceu poucos dias passados e foi acontecendo já em encontros previamente decididos, sem surpresa mas em crescente alegria, beijos de saudação, depois acomodados, já não em dois mas no mesmo banco próximo da velha árvore que parecia abençoar o parzinho de namorados em que cedo se tornaram.

Um dia, tirando do bolso um pequeno canivete, Renato disse:

 – Espero que o nosso castanheiro não tenha cócegas.

 – Que fazes?

 – Fazemos os dois, à vez.

Durante uma esforçada hora gravaram no tronco da árvore confidente uma declaração de amor eterno: Bruna – Renato. Entre os nomes um coração e, a fechar, uma certeza: Sempre.

Nos imprevistos da vida tinham passado de desconhecidos a namorados e o galopar do tempo levou-os a marido e mulher. Todavia, a erosão da vida em comum amiúde desperta pequenos ou maiores conflitos e foram surgindo discórdias e afastamentos entre duas pessoas que, no fundo, não tinham perdido o amor recíproco. Então, após cada desentendimento e como se os movesse um pacto sem palavras, caminharam até ao jardinzinho onde o tronco do castanheiro bravo lhes recordava a promessa: Bruna – Renato, coração, sempre.

Nesse momento fitaram-se, olhos nos olhos, riam-se, abraçavam, pediam desculpa e voltavam a casa reconciliados e felizes.

Tornavam-se cada vez mais frequentes, os desacordos e discussões, no entanto não desistiam de caminhar até à árvore das promessas registadas no tronco, em garantia de amor eterno. A inscrição gravada era um compromisso a tão longo prazo como é longa a vida dos castanheiros. Subsistia a convicção de que as palavras riscadas a canivete dotavam a árvore de uma protecção mágica.

Nada é seguro, evitável, garantido, nem mesmo a protecção de uma árvore amiga. Há três dias, um conflito mais agreste fê-los hesitar mas, em silêncio, decidiram voltar ainda ao jardim dos seus primeiros encantamentos. Viram, então, que onde havia relva, canteiros, os bancos do seu primeiro encontro, máquinas poderosas e cruéis tudo revolviam para nascer um parque subterrâneo para automóveis. E o castanheiro bravo, arrancado à terra e às vidas de Bruna e Renato, teria ido morrer aos golpes de uma qualquer serração.

Foi na Sexta-feira. No Sábado concordaram em separar-se, seguindo cada um o seu destino. Talvez se encontrem de fugida numa estação de metro e não deixarão de saudar-se com um aceno em memória dos tempos em que os unia o amor e um castanheiro bravo.

Mário Zambujal

[O autor escreve de acordo com antiga ortografia]