Olhares

Tiago Pereira, realizador, documentarista, visualista, autor do filme Sinfonia Imaterial (edição 2011 em DVD, Fundação Inatel) que exibe o “património oral e musical, recolhendo as práticas existentes de norte a sul do país incluindo as ilhas”, acaba de assinalar seis anos de existência do projecto A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPAGDP), não só com o lançamento de uma nova versão do site (acessível em http://amusicaportuguesaagostardelapropria.org) que inclui de forma mais arrumada um mapa etno-musical de Portugal dividido por distritos, com mais de 2500 vídeos organizados por instrumento, região, e género, como também com a publicação do livro (edição 2016, Tradisom)  de 92 páginas, cerca de 300 fotografias e 8 DVD com os 26 episódios da série documental  O Povo Que Ainda Canta, produzida para a RTP2 em 2015.

Mais do que a urgência de registar, catalogar e arquivar canções, orações sagradas, ritos de encomendação das almas, trava-línguas, décimas, paisagens sonoras rurais e urbanas de todo o tipo, transmitidas quer, pela pessoa mais conhecida e respeitada, quer pelo bobo ou pelo desafortunado da aldeia (ou do bairro), importa realçar a dimensão humana e o “efeito de contaminação” da MPAGDP.

 

 

Sendo a obra física (Livro + 8 DVD) de O Povo Que Ainda Canta dedicada a Adélia Garcia, ilustre cantadeira de Caçarelhos (Vimioso), falecida a 31 de Dezembro de 2016, que Tiago Pereira foi gravando durante 12 anos, à porta de casa, à lareira, na cozinha com o bico do fogão ligado. Ficar-nos-á para sempre na retina a aura de artista informal de uma “velhinha” que cantava porque sim, porque sempre soube cantar. Captada pela Nagra de Michel Giacometti, de Mário Correia, ou pela câmara de Ivan Dias e Manuel Rocha (da Brigada Victor Jara) na série documental O Povo Que Canta (RTP, 2005), por Né Ladeiras ou pela cantora e investigadora canadiana sefardita de origem judaica Judith Cohen, Adélia Garcia foi ao longo da sua vida uma figura tocante que, nas palavras de Tiago Pereira, “era como a Amália, por quem nutria profunda consideração. Agradava ao povo e aos intelectuais. Tinha este aspecto conciliador que vinha desde há muito tempo. Nunca nos podemos esquecer que a Adélia vivia em Caçarelhos, fazia contrabando, obviamente tinha de fugir dos guardas e que havia um em Espanha que a deixava sempre passar pedindo-lhe uma música que era uma versão dela do Só Nós Dois É Que Sabemos do Tony de Matos, que ela tinha aprendido pela rádio. Acho isto incrível. Mesmo assim, foi presa. Esteve um mês no Porto e toda a gente lhe dava as maiores regalias porque ela cantava na cama. Toda a gente perguntava quem era aquela senhora. A Adélia Garcia “tinha esta coisa de flautista de Hamelim que encantava as pessoas”.

A MPAGDP que sempre foi transversal à música tradicional e ao pop rock, ao rural e ao urbano tem sido ao longo destes anos uma ponte que estreita os laços entre gerações, que mostra a riqueza e diversidade das práticas musicais mais informais, rudimentares e em bruto. Que nos enche de orgulho de sermos o que somos. Portugueses. É por isso se ergue agora A Música Portuguesa a Gostar da Adélia Garcia. E que bom que é ver músicos e cantautores que tão bem tratam a nossa língua como Bernando Fachada, Manuel Fúria, Ana Deus (Osso Vaidoso), Domingos Gomes & Rini Luyks, Éme e Móxila, venerarem e cantarem a Sra. Dona Adélia.

Como se costuma dizer em África, quando morre um griot (aquele que conserva a memória colectiva) é uma biblioteca que desaparece.  Por isso, ponhamos a circular, de mão em mão, os “livros” que a Dona Adélia nos deixou.

Luís Rei

[O autor escreve de acordo com antiga ortografia]