Memórias

Um teatro que atravessa a História

 

O edifício, inaugurado em 1867, ergue-se, altivo, no coração de Lisboa, entre a Trindade, o Carmo, o Chiado e o Bairro Alto. Lugares que remetem para a cultura, o convívio e o charme de outros tempos. Ali respira-se História, a que já se escreveu e a que ainda se faz nos dias e nas noites fervilhantes de hoje.

 

O Teatro da Trindade foi aberto ao público dois anos depois do início da sua construção. O historiador contemporâneo Victor Pavão dos Santos (conhecido ainda como biógrafo de Amália Rodrigues) chamou ao Trindade “o sonho de um empresário”. Francisco Palha era o tal empresário teatral, de quem se falava.

Palha, reconhecido na Lisboa oitocentista também como jornalista, dramaturgo, escritor e tradutor, teve a ideia de construir um “novo e moderno teatro – o Trindade – de que se tornou o principal impulsionador e que inteligentemente dirigiu desde a sua fundação, em 1867, até ao final da sua vida”, escreveu Tomaz Ribas há um quarto de século no livro O Teatro da Trindade, 125 anos de vida.

A fundação do Teatro da Trindade, que celebra 150 anos em 2017, no coração de Lisboa, assumiu uma relevância capital na cultura portuguesa da época. Em declarações ao jornal Tempo Livre, o olisipógrafo António Valdemar, jornalista, investigador e membro da Academia das Ciências, leva-nos a uma viagem pelo tempo que se cruza com outras curiosidades históricas: “O espaço da Trindade foi sempre privilegiado antes e depois do terramoto de 1755. A Academia da Trindade teve um papel bastante significativo. Foi instalada nas dependências do Palácio de Fernão Alves de Andrade, onde é hoje o Largo Rafael Bordalo Pinheiro. Existiu desde 1735 a 1739. Já a ópera italiana estava no teatro da rua dos Condes, mas o Teatro da Trindade, construído por iniciativa do empresário Francisco Palha, um dos maiores colecionadores das edições d’ Os Lusíadas e outras obras de Camões, felizmente salvas e depositadas nos Estados Unidos, na biblioteca do congresso em Washington, teve uma importância fundamental para sucessivas gerações. Ficava no antigo Palácio Paim, mesmo ao pé do Ginásio, a sociedade que deu lugar a este teatro, que, no Carnaval de 1867, abriu para um baile de máscaras.”

“Eram as máscaras”, prossegue António Valdemar, “do fim do romantismo e anunciavam várias máscaras que iam acompanhar e demolir as Conferências do Casino, que principiaram aí ao pé da porta, com a grande geração de Antero, Eça, Batalha Reis. Ficaram registadas nos jornais, nas revistas, nas primeiras caricaturas de Rafael Bordalo, e abriram caminho para o que podemos chamar a sociedade moderna”.

Outro dinamismo no Chiado

Os tempos modernos caracterizam-se, entre outras coisas, pela busca do conhecimento, pela cultura próxima das pessoas. No sonho de Francisco Palha estava um teatro de qualidade, com uma programação diversificada, em teatro e em música, mas mais acessível que os teatros nacionais, D. Maria II e São Carlos.

Paula Gomes Magalhães, investigadora do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, realça ao TL que “o Trindade veio criar uma centralidade e uma dinâmica teatral muito intensa no Chiado”. Uma das grandes apostas foi a ópera cómica e a opereta: “Com um espetáculo retratado no livro de Eça de Queiroz A Tragédia da Rua das Flores, o Barba Azul, a opereta explodiu, também por ‘culpa’ do Trindade – era uma forma teatral com bastante público na altura. Vários outros teatros também optaram depois por esse género teatral.”

“O Trindade era um espaço intermédio, constituía uma bissetriz entre o São Carlos e o Ginásio. Talvez por isso Eça de Queiroz o elegeu n’ Os Maias para a realização de um sarau, e ali estavam frequentadores do Grémio Literário, da Casa Havaneza, dos ministérios e secretarias de Estado, uns de gravata branca, outros de jaquetões”, complementa António Valdemar. É nas obras de Eça de Queiroz que se encontram mais referências sobre o Trindade.

Teatro à francesa

A visão de Francisco Palha para o teatro abre para o mundo. “Ele queria que este fosse um teatro diferente, que chegasse ao público. Não existia, na altura, um teatro para a burguesia em ascensão, elegante, ostensiva, que gostava de se mostrar e de passear no Chiado, com os últimos modelos vindos de Paris, que comprava ou mandava fazer às costureiras daqui. O Trindade é um teatro à francesa. A sala, quando foi inaugurada, foi a principal estrela e não criava as distinções por exemplo do São Carlos”, explica a investigadora.

Conta-se até que o edifício e a sala do Trindade é que foram as vedetas no espetáculo inaugural, na noite de 30 de setembro, A Mãe dos Pobres e o Xerez da Viscondessa, o drama em cinco atos e um na comédia espanhola. No elenco estavam, entre outros, Delphina do Espírito Santo, Emília Adelaide, Rosa Damasceno, Tasso e Izidoro. O público e crítica não ficaram satisfeitos. O caminho foi sendo percorrido com altos e baixos até à atualidade. Muitas outras histórias deste teatro há ainda para partilhar. O pano fecha por ora, para ser levantado nas próximas edições.

Sílvia Júlio