Entrevista

Ouro moldado em alta temperatura

 

Waldemar Bastos. Cidadão do mundo nascido em Angola em 1954. Cantautor atlântico há 35 anos. Assegurou a primeira parte do concerto surpresa do maliano Salif Keita no Grande Auditório do ISCTE e encerrou com chave de ouro o Ciclo Mundos de 2016, no Teatro da Trindade Inatel com o mais recente espectáculo acústico “Cores do Sentimento”. Em 2017 deverá lançar novo disco de originais no qual promete cantar repertório de Mercedes Sosa.

 

Em 2002 fez questão de comemorar os seus 20 anos de carreira de músico. Em 2017 completa 35 anos de actividade. Está a planear algo especial para assinalar esta efeméride? Irá lançar disco novo este ano?

 Estou a trabalhar actualmente num disco acústico no contexto daquilo que é a minha alma atlântica. A viagem da língua portuguesa pelos diferentes países: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, passando pela América Latina e pelo Mundo. É um trabalho de cantautor. Vou interpretar composições minhas e de outros autores da América Latina, Brasil e Portugal.

E que autores são esses?

 Não queria adiantar muito. Ainda estamos em contacto. Mas do Brasil serão autores da nova geração. Da América Latina, uma ou duas daquelas canções referenciais que a Mercedes Sosa interpretava. É coisa que me toca esse tipo de canções de alma. Estamos a fazer a escolha dos temas e acredito que dentro de três meses começamos a gravar. Vai ser uma gravação em directo.

Quando fala em acústico refere-se ao formato reduzido de trio com que se tem apresentado nos últimos espectáculos com mais uma guitarra acústica do Rui Meira e com as percussões do Mick Trovoada?

A base é essa. Claro que depois poderei acrescentar um ou outro instrumento mas a estrutura é essa.

A sua música nunca foi 100% angolana. Sempre fez questão de frisar que a sua música não é regional, é cosmopolita. Reflecte a sua vivência no Brasil, Holanda, França, Portugal e Estados Unidos. É por isso que a sua música parte de Angola e abraça esse berço atlântico?

É verdade. Isso a posteriori dessas viagens que a vida me tem proporcionado. Antes disso, tenho formação de músico de baile. Tocava em grupos de baile. Também, a rádio no tempo colonial, passava todo o tipo de música. Ouvia Amália Rodrigues e Zeca Afonso quando era criança. O lado cosmopolita da minha música tem a ver com o “antes” e o “depois”. Ao tocar em grupos de baile, abrangia todo o leque de música internacional, seja ela tango, valsa, marcha, marchinhas e por aí fora até ao pop, rock, jazz, Pink Floyd, Bee Jees, Beatles... Tocávamos tudo isso nos tempos de escola.

Por falar em rock e sendo o Waldemar oriundo de uma zona de Angola muito próxima do antigo Zaire, conhecido pelos exímios guitarristas como Franco: na altura em que gravou com orquestra o “Secrets Of My Soul” e versões de temas dos U2 [“Love Is Blindness” para a compilação “In The Name of Love -Africa Celebrates U2”], falou-se na possibilidade de o Waldemar fazer um disco eléctrico. Não pensa também ir buscar este legado de guitarra zairense?

 Vai entrar nesse disco. Este trabalho é electro-acústico. A alma é mais acústica. As músicas mais mexidas vão ter naturalmente essa dimensão. É um voltar ao orgânico, ao centro de gravidade.

Quando fala em música da alma parece que faz aqui uma distinção entre música para fazer pensar, para exultar o sentimento e uma música mais dançável, mais para entretenimento. É isso?

Com certeza. Mas gostaria ainda de dizer o seguinte: a música da alma contempla também a dimensão espiritual. Sou cristão, acredito e tenho a certeza que somos espírito e matéria. A música foi um dom que me foi dado e tento sempre dar-lhe a dimensão humana da nossa existência: as nossas ansiedades, as nossas preocupações sociais. A questão dançável ou não, até poderei dizer que a música mais ritmada em África também pode ser espiritual. Primeiro as pessoas sentem, depois é que dançam e quando estão a dançar, estão a reflectir.

É essencial para si pôr em prática os valores cristãos na sua vida, na sua obra artística?

É natural. Fui educado assim e ao longo dos anos tudo indica que estou bem. Não vejo a vida de outra forma. Sou uma pessoa que erra como as outras, mas tenho estes princípios. Sempre acreditando na beleza da pátria celestial.

Não é comum vermos um músico por sempre em prática os ensinamentos divinos da humildade e do agradecimento como o Waldemar…

Posso dizer que aprendi muito com o meu pai. Foi enfermeiro e era humilde. Estudou desde o curso elementar até ser supreintendente de enfermagem e sempre foi a mesma pessoa. Dizia que era superintendente de enfermagem até às 18h, depois era Carlos de Almeida Bastos. É esse lado que aprecio e que passo para os meus filhos e fico muito feliz porque todos eles exercem… nós somos todos seres humanos, não temos que ter complexos de superioridade em relação aos outros. Por conseguinte, devemos saber agradecer e estar em confraternidade com as outras pessoas. Isso nem sequer é pensado, para mim é natural. Acredito que muita gente tenha sido educada assim, mas com as apetências da sociedade de consumo puseram de parte esses valores. Mas eu não. Não abdico porque acho que é o lado belo da vida.

As suas composições têm sempre várias nuances. Na altura em que gravava o “Pretaluz”, o produtor Arto Lindsay pensava que uma canção eram duas diferentes porque variavam muito. Havia momentos de tensão, de relaxamento. Será que pensa a música como uma peça para uma orquestra?

Quando comecei a compor nunca tinha pensado nisso. Quem me alertou para isso foi mesmo o Arto Lindsay. Foi uma surpresa para ele e não foi muito agradável no primeiro contacto. Ele achava que eram duas músicas, foi para casa, esteve a pensar e que viu que era de facto uma música com vários andamentos. É assim que sinto a minha música. Como a natureza sempre a alterar-se. Chegámos aqui com sol e já está escuro, já é de noite. É uma forma de abordar a música.

 

 

Os momentos das suas músicas, ora pianíssimo, ora fortíssimo, dão-lhe maior liberdade para gerir os momentos do espectáculo? A forma como se apresenta em palco, seja em trio, seja sexteto, com diferentes formações?

A minha mulher sempre achou que a minha maior rentabilidade é com acústico, ao violão. Porque a minha entrega é maior. Não faço isso pensado para gerir, para ser sincero. Quando componho não estou a pensar em nada, estou a compor. Agora, acredito que o que acontece em palco não é mais do que o espelho da minha própria música. Mas não é uma coisa pensada. É natural.

Voltando às efemérides, faz este ano 20 anos que foi editado o “Pretaluz”. Disco editado pela Luaka Pop de David Byrne que lhe abriu as portas do mundo. É um disco que poderia ser editado em 2017. Continua contemporâneo. Como é que o vê?

 Quando a arte é feita com profunda sinceridade, revitaliza-se. Vejo o “Pretaluz” como um trabalho que pode ser reeditado. É fresco. Para ser sincero, todos os meus trabalhos têm essa dimensão. Nunca entrei em estúdio para fazer um disco para ir para o comércio. “Pretaluz”, grande trabalho que me lançou a nível internacional, foi um trabalho onde houve uma entrega verdadeira e por isso meio mundo o aceitou. Espero que agora num “segundo round” possa voltar a abrir caminhos. Penso que a minha música ainda precisa de ser conhecida. Já está em alguns lugares, já atingiu alguns patamares, mas precisa de encontrar um caminho de maior visibilidade.

Quando fala em “segundo round” refere-se a uma possível reedição do “Pretaluz” ou a esse disco que vai gravar em breve?

Esse disco de 2017 também. Mas esta ideia de pegar no “Pretaluz” não está fora de causa. Uma coisa não anula a outra. É uma questão de ser ver o que se pode fazer. Como estou agora a trabalhar com a Gindungo [produtora de espectáculos do Carlos Seixas [director artístico do FMM de Sines]... a ver vamos... Até foi bom teres alertado para isso. Sei que sempre acompanhaste o meu trabalho. Vou falar com eles sobre isso. Acho que era muito interessante, sem dúvida.

Que relação tem actualmente com o David Byrne? Num contexto em que está a haver cada vez mais reedições em vinilo de álbuns “clássicos” seria muito pertinente ver o “Pretaluz” reeditado em LP pela Luaka Pop.

Temos uma boa relação de amizade. Convidou-me algumas vezes, nem sempre consegui aceder por causa da minha vida… isto que acabámos de falar... as coisas não por acaso. Este “input”... quem sabe se poderemos fazer alguma coisa em relação a isso. São 20 anos. É verdade.

Em 2016 foi um espectador assíduo dos espectáculos que ocorreram, quer no Festival de Músicas do Mundo de Sines, que no Ciclo Mundos do Teatro da Trindade INATEL. O que é que lhe encheu verdadeiramente a alma?

O próprio título diz tudo. Quem assiste a estes espectáculos são pessoas abertas ao mundo. Ouvir sentimentos, emoções e perspectivas de outros artistas é extremamente enriquecedor. Falando de forma geral, foi sempre muito gratificante assistir a colegas de outros continentes, com outra visão estética. Claro que tudo isso acaba por influir na minha própria música.

De que forma estes espectáculos influem na sua música?

De muitas formas. Uns subjectivos, mas uma coisa é certa. A pessoa ao ver outras abordagens, se tiver o coração aberto, tudo o que for bonito será absorvido.  Vou para esses espectáculos com as antenas bem abertas, receptivas. Depois, o processo de composição, o processo interior... às vezes não podemos definir por palavras. A nossa música acaba por sair com alguma coisa que sentimos de belo.

Não é novidade para si pisar os mesmos palcos de alguns “monstros” das músicas do mundo. Mas em 2016 teve um gostinho especial de partilhar em Lisboa o palco do ISCTE com o Salif Keita. Como é que foi a sua relação com ele?

Gostei dele. É uma pessoa simpática. Já estive com ele em Sevilha. É um dos artistas africanos que mais aprecio. Gostei imenso de estarmos juntos.

No caso do Salif Keita, acha que as contrariedades da vida, o facto de ser-se albino, dos pais não terem aprovado a sua carreira musical, o tornou mais forte, mais autêntico na sua mensagem?

Ele naturalmente já veio predestinado e ele soube receber esse dom. Naturalmente que as contrariedade acabaram por moldar mais a sua arte. Não tenho dúvida. O ouro é moldado em alta temperatura.

Luís Rei