Reportagem

Monsanto

Pedras que contam histórias

A Fundação Inatel apoiou, em 1999, um “processo de desenvolvimento regional integrado”, lançando a Carta do Lazer das Aldeias Históricas. Nos finais do século XX, algumas localidades receberam o título de Aldeias Históricas. A curiosidade de saber o que mudou a partir de então leva-nos a percorrer essas terras. Primeira paragem: Monsanto, que recebeu, em 1938, o galardão de “aldeia mais portuguesa de Portugal”. O galo de prata na Torre do Relógio evoca essa memória.

 

O fumo das lareiras serpenteia o céu de Monsanto, no concelho de Idanha-a-Nova. O frio que se faz sentir não demove quem circula vindo do baluarte para o núcleo histórico. O caminho para o castelo aquece o ânimo dos que gostam de percursos ascendentes. Os que não gostam de seguir os trilhos sempre a direito, cruzam outras ruas estreitas e sinuosas, com o casario granítico, e procuram a ampla paisagem campina. Miradouros não faltam para encher os olhos. Ninguém se perde se entrar por aqui e sair por ali. Há placas de identificação dos locais a visitar espalhadas por todo o lado – quase que se estranha, se lembrarmos a fraca sinalética existente por outras paragens. Nada parece ser pensado ao acaso. Até os sanitários existentes, em diferentes pontos daquele lugar com história, denotam a preocupação com os visitantes. Pormenores que não são de somenos importância. O turismo é a aposta desta terra de penedos de mil formas. O escritor Fernando Namora, que exerceu ali medicina, chamava-a de “nave de pedra”. Uma metáfora que aludia à dureza do lugar, e às débeis condições de vida dos aldeões, em oposição à felicidade propagada pelo Estado Novo da ruralidade da “aldeia mais portuguesa”, como se lê na placa identificativa do antigo consultório do médico.

Monsanto marcou a obra literária de Fernando Namora. Também Zeca Afonso, cantor e compositor, que escreveu, entre muitas outras letras, O que faz falta é animar a malta, comprou por lá uma casa. Quem passa por aquela terra talvez não fique indiferente. Talvez inspire. Talvez abra ao espanto. Talvez anime. Talvez convide à criação. À arte.

Cada pedra fará parte da história de vida dos monsantinos. E até de quem ali vai, nem que seja por parcas horas. “Quem aqui vem leva para casa uma lembrança visual. Há paisagens impressionantes e construções graníticas que fazem de Monsanto um sítio único”, afirma Paulo Monteiro, 38 anos, presidente da junta da União de Freguesias de Monsanto e Idanha-a-Velha, que aqui nasceu, aqui foi criado e aqui vive “com orgulho”.

 

 

Alguns visitantes terão a perceção de que Monsanto é pouco mais que a zona histórica – Paulo Monteiro faz questão de pôr os pontos nos is: “Há uma ideia errada do que é Monsanto. Trata-se de um conjunto de 21 lugares, que vemos à volta, como Relva, Eugénia, Devesa, etc. Tudo agregado é que é Monsanto. A freguesia estende-se por uns 10/12 quilómetros.”

De ficar com os olhos em bico

Em Monsanto estão recenseadas cerca de 900 pessoas; o núcleo histórico tem entre cinquenta e sessenta habitantes. No entanto, o responsável pela junta gosta de incluir os que vivem grandes temporadas ali, mas que fizeram vida nos grandes centros urbanos. “Residentes serão uns 1000/1100. Consideramo-los monsantinos”, realça.

De março a setembro, quando há mais turistas, chegam, em média, 500 pessoas por dia à aldeia. A maior parte dos visitantes vem da vizinha Espanha (houve um hermano que disse, em jeito de brincadeira, à equipa do jornal TL, que vinha de Madrid e era amigo de Cristiano Ronaldo, outro símbolo bem português, este do desporto). Outros vêm do centro da Europa e até da Ásia. Nos últimos tempos, os japoneses têm afluído a este recanto rural, depois de Monsanto ter sido eleito, por um conjunto de agências de turismo nipónicas, como um dos 25 lugares mais bonitos da Europa. É de ficar com os olhos em bico com os penedos, as vistas e as gentes.

A grande maioria dos turistas está apenas de passagem. Mas outros escolhem ficar mais dias. “Nos últimos anos, para dar apoio ao turismo, foi incentivado o comércio, hotelaria e restauração. Pelo ano 2000 havia apenas uma unidade hoteleira em Monsanto, hoje existem 60 ou 70 camas que podem ser postas à disponibilidade dos turistas, há também mais restaurantes... Por haver maior incremento do turismo, houve necessidade de satisfazer as necessidades dos turistas e de as pessoas criarem o seu próprio trabalho, e gerar riqueza a partir daí.”

 

Histórias fecundas

Alice Gabriel, 85 anos, é proprietária da casa mais antiga aberta ao público, em 1954. No seu alojamento local e na loja de artesanato regional fala com muitos forasteiros. Lá se vai queixando que não têm comprado muito: “Não há dinheiro para compras, a crise é igual por todo o lado”, constata do seu posto de observação. “De vez em quando compram um postalinho, uma miniatura para pôr no frigórico que diga Monsanto…” À venda tem, entre outras coisas, queijos de ovelha e de cabra da região, mel, compotas, pão caseiro, bicas de azeite, cestos de verga, adufes (típico instrumento musical de percussão da Beira Baixa) e galos de Monsanto. A octogenária conta, à sua maneira, a história do galo, que toca com a sua história de vida: “Em 1938 as aldeias foram a concurso, a nossa ganhou. Teve como prémio um galo de prata do tamanho de um galo normal e o título de ‘aldeia mais portuguesa de Portugal’. Uma réplica do galo está na Torre. Eu tinha sete anos e, na altura, fui vestida à Mocidade Portuguesa. Era uma quantidade de miúdos da Mocidade Portuguesa e, como eu era a mais pequena, ia à frente com a bandeira de Portugal. Tenho ali fotografias e um galo que me foi oferecido, igual ao de prata.”

 

Alice conta outras histórias das coisas da terra. A protagonista que se segue é a marafona, a famigerada boneca de trapos, sem olhos nem boca, feita a partir de uma cruz de madeira. Diz-se que as marafonas “dão sorte” – simbolizam a fertilidade. “Há uns oito, dez anos, uma senhora brasileira, que estava casada há muito tempo, nunca tinha tido filhos. Leu a história da marafona e comprou-me uma. Um dia, estava eu aqui empinada ao balcão, como estou agora, e chega uma senhora com um carrinho de bebé. Entrou e abraçou-me para agradecer. Disse que ao fim de quinze dias, depois de lá ter a marafona, engravidou.” Já a avó de Alice fazia essas bonecas. A passagem de testemunho da arte foi passada à filha e à neta. Tradições que se mantêm para lá do tempo.

A russa Erzhena Dondokova, 29 anos, passeia pelas ruas de Monsanto. Ainda não comprou nenhuma marafona mas confessa estar “impressionada” por tudo o que tem visto. “As pedras e a arquitetura são muito interessantes. É muito diferente da Rússia.” Está ali de passagem depois de ter ido à Serra da Estrela. A seguir vai a Coimbra.

Luís Abreu, 54, é brasileiro. Vem de Pernambuco. Pesquisou na internet as 12 aldeias históricas de Portugal. Já conhece sete. Hoje foi a vez de visitar Monsanto. Vai, vigoroso, a caminho do castelo com “muita curiosidade”, depois de ter comido bacalhau num restaurante local.

Reza a lenda que as pedras do castelo também assistiram a histórias “curiosas”. Conta o presidente de junta: “Os mouros vieram invadir Monsanto. Os monsantinos, que viviam fora das muralhas, quando se sentiram invadidos, foram para dentro do castelo e levaram os seus bens. Durante sete anos estiveram cercados. Os mouros nunca tomaram o castelo. Quando havia poucos mantimentos, os monsantinos, que já só tinham meio alqueire (medida agrária) de trigo, e sem saberem o que fazer, deram esse trigo a uma bezerra. Subiram à muralha e mandaram-na por ali abaixo. Quando chegou ao chão, rebentou e ficou com a comida toda à vista. Os mouros pensaram: ‘Estamos aqui há sete anos e ainda não conseguimos invadir o castelo. Se eles ao fim deste tempo ainda estão a mandar vacas pelas muralhas abaixo, nunca mais vamos sair daqui.’ Levantaram cerco e foram embora. Foi com este bluff histórico que apareceu a lenda de Monsanto.” A representação histórica daquilo que se diz que aconteceu é reproduzida no domingo a seguir a 3 de maio, um ponto alto da Festa de Santa Cruz. O que se atira hoje da muralha é um pote de barro com flores (as flores representam o trigo, o pote o bezerro).

Acolhimento de braços abertos

O que também tem trazido muita gente de fora é a curiosidade de uma casa entalada entre dois penedos. Aproximamo-nos de lá, depois de descermos do castelo. Um gato mia com frio. Batemos à porta para o felino ir para o quentinho. Vem uma senhora à janela. O gato trepa pela árvore despida. Metemos conversa com ela. É Isaura Amaral, de 66 anos, que já nasceu naquela original casa. Deixa-nos, generosamente, entrar pelos seus aposentos. A casa já pertencia aos bisavós maternos. Fala com orgulho: “Esta casa já foi filmada umas tantas vezes – não há cá nenhuma como esta. Agora vêm cá filmar uns russos, não sei quando é que vêm”, começa por contar.

“De fora ninguém diz a casa que é. A casa é grande. Se eu quisesse vendê-la já a tinha vendido, mas não a vendo porque não é só minha [eram quatro irmãos, a mais velha já faleceu], e também para onde é que eu ia? Tenho muito amor à casa!” Perguntamos-lhe se não é fria. Isaura tem uma lareira antiga para a aquecer. E retorque com uma sonora gargalhada: “Estou muito bem, estou quentinha.” Depois de saciar a nossa curiosidade, despede-se, dizendo que não costuma abrir as portas da casa a qualquer pessoa. Agradecemos a confiança e despede-se de nós com um sorriso aberto: “Saudinha!” São as gentes que fazem os lugares, já se sabe. São, sobretudo, as memórias das pessoas que uns e outros levam quando ali vão.  

 

Descemos à Torre de Lucano. Um pouco mais abaixo estão as instalações da Rádio Clube de Monsanto. A passar por ali está Joaquim Fonseca, 71 anos. Trocamos dois dedos de conversa com ele. Casou há 40 anos com uma monsantina, e ficou. É da Beira Alta e, desde que assentou em Monsanto, diz que não tem notado grande evolução naquele lugar. Lamenta que o turismo seja breve: “Há necessidade de investir num turismo de quatro, cinco dias.” E considera, ainda, que deveria haver homogeneidade, por exemplo, nas caixas dos contadores da água e eletricidade, e nas cores das portas das casas, para que tudo se enquadre na rusticidade de Monsanto: “Se é a aldeia mais portuguesa de Portugal, se é uma aldeia histórica, há aqui uma dupla responsabilidade. Estas duplas classificações obrigam a uma certa consciencialização para a preservação do património edificado.”

“Por vezes, as pessoas fazem obras de alteração e deveria haver um acompanhamento técnico, a nível da gestão autárquica, para haver mais harmonia”, justifica. Conta que é por gostar tanto de Monsanto que vai dizendo o que pensa, para que se preservem as características do conjunto arquitetónico da aldeia. Há palavras que podem ter o condão de mudar as coisas. E outras há, também, que podem fazer os visitantes sentirem-se em casa, como lembra Joaquim Fonseca: “As poucas pessoas que vivem no núcleo histórico são afáveis, gostam de receber bem quem por bem nos visita.” É uma aldeia portuguesa, com certeza.

Sílvia Júlio