Destaque

Um ano para despertar

“Turismo é morte do preconceito”

 

A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2017 como o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento. Objetivos fundamentais: o setor turístico contribuir para os três pilares da sustentabilidade –ambiental, económica e social –, e ajudar à construção de um mundo melhor.

 

“Viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as ideias limitadas”, escreveu Mark Twain, pseudónimo de Samuel Langhorne Clemens, autor d’As aventuras de Tom Sawyer (século XIX). Estas palavras do escritor norte-americano trespassam e perduram no tempo porque dirigirem o olhar para longe, abrem para a amplitude do mundo, para o conhecimento dos homens e das mulheres. Próximos e distantes. A compreensão, a tolerância e a empatia pelo outro começam sempre por uma viagem.

A decisão de se celebrar o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento surge na sequência de os líderes mundiais reconhecerem, no âmbito da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio + 20), que um turismo “bem concebido e bem gerido” pode ajudar nas três dimensões do desenvolvimento sustentável. A celebração deste ano visa aprofundar a consciência da herança das várias civilizações e conduzir a uma melhor apreciação das diferenças culturais, fomentando assim a paz no mundo. Em suma, o turismo pode contribuir para fazer deste um mundo melhor.

“Todos temos de trabalhar em 2017 para que se deixe um legado nas atividades da fileira do turismo. Este é um ano de chamada de atenção. Que não seja apenas uma comemoração que se esgota no dia em que encerra”, alerta Fernando Perna, coordenador do Centro Internacional de Investigação em Território e Turismo da Universidade do Algarve (UAlg). “Estamos mais despertos para o tema da sustentabilidade. Tornou-se, definitivamente, a consciência de que qualquer atividade que não seja sustentável acaba, a médio ou longo prazo, por ser contra o desenvolvimento da sociedade. Não é possível ser-se neutro”, afirma perentoriamente.

 

Reflexão e debate

Este é o ano oportuno para se promover maior reflexão e debate sobre turismo e desenvolvimento sustentável. Um assunto que, apesar de não ser novo, estará, em 2017, na ordem do dia. Os organismos públicos, as entidades privadas, as populações locais e os turistas vão olhar com mais atenção para estas temáticas durante os próximos meses. “A atividade turística movimenta muitos milhões de pessoas para fora do seu ambiente habitual e torna-se fundamental a concertação de estratégias público-privadas para que o desenvolvimento turístico esteja permanentemente assente numa base de sustentabilidade”, considera Jorge Marques, coordenador do mestrado em Turismo e Hospitalidade da Universidade Portucalense (UPT).

Quando se fala em turismo sustentável, há quem apenas veja pela lente ambiental – porém, o conceito é multifocal: “Quando se discute sustentabilidade, fala-se em equilíbrios sociais, económicos e ambientais. Estes três vértices têm de funcionar em conjunto”, esclarece o investigador da UAlg.

O foco está centrado nos três pilares, que não vivem uns sem os outros: sustentabilidade ambiental, económica e social. Mas, como sustentar esta espécie de ‘três em um’? Na prática, como é que isso se pode fazer? “O desenvolvimento de políticas de turismo sustentável deverá ter em conta a preservação e valorização dos recursos naturais, a dinamização das atividades económicas locais e a preservação e valorização da cultura e identidade locais. Neste contexto, assume um especial relevo a participação das populações locais para a valorização da própria experiência turística do visitante, através do artesanato local, das artes e ofícios, das tradições, da gastronomia típica local e do contar estórias associadas aos locais de visitação”, responde Jorge Marques.

Valorizar o que nos diferencia

A Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, constituída por 17 objetivos, aprovada por unanimidade por 193 Estados-Membros da ONU, “para acabar com todas as formas de pobreza”, realçando que “ninguém seja deixado para trás”, aborda, inevitavelmente, o turismo sustentável. No objetivo 8, por exemplo, aponta-se para a promoção do trabalho digno e crescimento económico. Até 2030 há que “elaborar e implementar políticas para promover o turismo sustentável, que cria emprego e promove a cultura e os produtos locais”. Para a concretização desta meta, Portugal “terá necessariamente que valorizar os recursos locais dos territórios de forma integrada, envolvendo a população local e os conhecimentos e valores culturais que podem dar às gerações futuras, de forma a preservar e, em muitos casos, recuperar heranças culturais identitárias”, defende o docente da UPT.

“Cada vez mais”, continua, “as pessoas viajam pela experiência, pela autenticidade, pela diferenciação e aquilo que torna Portugal único é precisamente a sua cultura, a sua identidade, o seu património. Não podemos cair no erro de ‘turistificar’ excessivamente o nosso país ao oferecer mais do mesmo aos visitantes. Devemos, sim, apostar na valorização daquilo que nos diferencia e daquilo que diferencia cada um dos territórios nacionais. A melhor forma de o fazer é mostrar o artesanato local, as tradições e culturas locais e a gastronomia típica que valoriza os produtos endógenos, integrando em todo este processo o contributo da população local”.

Nesta senda de argumentos está também Fernando Perna, que fala num “caminho longo” a percorrer na oferta de produtos locais que dinamizem a economia das regiões. Exemplifica com um caso eloquente: “Se um turista estiver sentado numa esplanada do Algarve e, em vez de beber uma água Evian, consumir, a metade do preço, uma água de Monchique, terá um efeito muito superior na economia.”

Turistas mais atentos

Há, ainda, muitos outros aspetos a ter em linha de conta, designadamente as condições de trabalho de quem lida, em diferentes âmbitos, com os que chegam de fora. “O turista avalia as condições de trabalho não só no hotel, mas também no próprio destino. Se há alguém que avalia de forma independente uma região é o turista – não perdoa. Quando chega e vê condições de trabalho inferiores ao seu país de origem, ao seu standard habitual, ele nota e comenta. Hoje, com o poder das redes sociais, essas falhas não podem acontecer”, salienta o investigador da UAlg, que faz notar a necessidade de “haver um equilíbrio entre os visitantes e os visitados; ambos têm de ganhar com a presença do seu similar”.

O turista está, cada vez mais, ambientalmente (não esquecer aqui as tais três dimensões), exigente. Há regras e princípios inerentes ao turista, para que também ele se sinta responsabilizado para a sustentabilidade e desenvolvimento. “Ao longo dos anos tem-se verificado uma alteração no comportamento dos turistas, com tendência para uma maior sensibilização relativamente às questões ambientais, às diferenças culturais, à preservação do património, à identidade local e à sustentabilidade. Cada vez mais se fala em turismo de nichos em detrimento do turismo massificado. Ou seja, o turista é cada vez mais informado, esclarecido e exigente relativamente aos lugares que pretende visitar e também relativamente às questões de sustentabilidade nos destinos”, constata Jorge Marques, que aponta que a responsabilidade do visitante para a sustentabilidade e desenvolvimento se “deverá verificar não só através do comportamento que adota nos locais por onde passa, mas também nas escolhas que faz antes da viagem ter início, por exemplo, através da escolha do alojamento, dos transportes e outros prestadores de serviços que revelem práticas e políticas sustentáveis”.

“Um destino que não seja ambientalmente amigável, não terá clientes no futuro. A própria procura vai exigir que a oferta tenha essa qualificação ambiental”, resume, por sua vez, Fernando Perna.

Promover a inclusão

Pessoas mais informadas, esclarecidas e sensibilizadas ajudam a mudar o mundo. Perto e longe. Junto à porta ou nos antípodas. Voltando aos passos que estão a ser dados até 2030, um dos objetivos (o 16.º) indica a necessidade de se promoverem sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável. “Se há atividade que não aceita a não-inclusão é o turismo. Quando chegamos a um destino onde as mulheres têm um papel inferior aos homens na sociedade, este aspeto e outros tão graves tocam-nos. E aí há uma excelente hipótese de o turismo contribuir para a sociedade. Se tivéssemos de apostar num setor que promove a inclusão e a igualdade social seria o turismo”, sublinha o investigador da UAlg.

“O turismo permite-nos abrir horizontes, conhecer diferentes povos, culturas e religiões, quer quando viajamos para outro país ou quando recebemos os turistas”, complementa Jorge Marques. Uns e outros ficam mais ricos quando aprendem a conhecer-se, a partilhar aquilo que até então desconheciam. Neste Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento há discussões que vão estar em cima da mesa para se promoverem sociedades mais pacíficas e inclusivas. Contributos para o “fortalecimento da paz no mundo”.

Sílvia Júlio