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Homenagem no Trindade a 21 de março

No dia da poesia sobe ao palco o espetáculo “Zeca Afonso – Coro da Primavera”, no Teatro da Trindade, às 21 horas. Um concerto dirigido por Carlos Alberto Moniz, produzido por Miguel Ferraz, com cenografia de António Casimiro, para manter a chama das palavras de um homem irrequieto, que morreu há 30 anos.

 

É na estação do ano do renascimento, em que que as folhas das árvores ficam viçosas e as flores se abrem para o sol, que se vai celebrar a vida do cantor, músico, compositor e poeta que escreveu o Coro da Primavera. “Da matinal canção/ Ouvem-se já os rumores/ Ouvem-se já os clamores/ Ouvem-se já os tambores/ Livra-te do medo/ Que bem cedo/ Há de o sol queimar.” Estas e outras palavras ecoam ainda nos dias de hoje.

É na sala Eça de Queiroz que se vai ouvir a vasta e diversificada obra de Zeca Afonso, as composições, populares e eruditas, e a poesia cantada e declamada. À Capela de Coimbra (fados de Coimbra), Francisco Fanhais, Ana Lains e Paulo Loureiro (piano), Rumos Ensemble (piano, violino e clarinete), Vitorino, Lúcia Moniz, Diogo Leite, Silvestre Fonseca, Samuel, Filipa Pais, Carlos Alberto Moniz, Tuna Académica Feminina do Instituto Superior Técnico e a Banda Filarmónica Matos Galamba (Alcácer do Sal) dirigida pelo maestro João Neves fazem parte do elenco confirmado até ao fecho desta edição. Cândido Mota apresenta o espetáculo, uma parceria da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e Fundação Inatel.

“Fui incumbido pelo presidente da SPA, José Jorge Letria, há quase um ano para fazer uma grande homenagem a José Afonso. Houve um encontro de vontades com a diretora artística do Teatro da Trindade, Inês de Medeiros, que também queria fazer uma festa para assinalar a poesia. O dia da primavera assinala a perenidade da obra de Zeca Afonso”, esclarece Carlos Alberto Moniz ao TL.

A entrevista com o maestro, que o acompanhou vários anos na guitarra e lhe fazia segundas vozes, decorreu no edifício da SPA, junto da mostra “O que ficou por dizer – A censura na cultura e nas artes – 1936-1974”. Pegamos no título desta exposição (patente até maio) e perguntamos: O que ficou por dizer sobre o génio do autor de Grândola, Vila Morena? “Será sempre difícil dizer ‘está tudo dito!’, porque vamos sempre descobrindo José Afonso na sua globalidade. Comprei, na Associação José Afonso, um livro com os textos do Zeca, não só as canções mas também o  que ele escrevia para ser lido, uma parte da sua obra pouco conhecida. Vamos, inclusivamente, aproveitar alguns desses poemas, de belíssima qualidade, para incluir no espetáculo”, conta.

Património cultural

Evocar esta memória é realçar parte do património cultural português antes e depois da madrugada de Abril. José Afonso deixa um legado que as novas gerações parecem não querer deixar morrer. Pelo menos, a avaliar pela reação dos estudantes que Carlos Alberto Moniz tem encontrado pelas escolas por este país fora. “Encontro sempre rapaziada que quer tocar uma canção dele ou, então, toda a assistência começa a cantar. A música de Zeca Afonso é bastante conhecida e espero que haja sempre juventude a agarrar a obra dele.”

“Inventou melodias tão originais que, basta ouvir um bocadinho, já sabemos que são do Zeca, mesmo sendo muito diferentes umas das outras. Todas têm uma chama especial”, sublinha Carlos Alberto Moniz, que confessa ter aprendido muito com este mestre, designadamente a verticalidade na defesa das convicções: “Aprendi principalmente a ter as costas direitas, a respeitar a vontade dos outros e a liberdade. É ter a certeza de que quando me deito, vou acordar com a consciência tranquila de não ter traído os meus ideais e posso melhorar o bem-estar dos outros.” O maestro considera que hoje, se ele ainda estivesse entre nós, quase 43 anos depois da democracia, não estaria sentado numa cadeira quieto. Tentaria descobrir “outras formas de ação”. Tinha um espírito irrequieto e disponível para estar entre as pessoas, levando, à sua maneira, palavras de intervenção.

Episódios curiosos com dinheiro

Zeca Afonso e Carlos Alberto Moniz andaram por todo o mundo a cantar e a tocar juntos. Por cá, atuaram de Norte a Sul, com especial destaque na outra margem do rio Tejo: Baixa da Banheira, Laranjeiro e Seixal. A maior parte dos espetáculos “era de borla”. Outros havia em que dizia “Ó Moniz, vai lá tu receber”. Um dia, já depois do 25 de Abril, deram um concerto numa esplanada, no Algarve. Zeca comentava: “Se calhar, o homem não fez dinheiro para nos pagar…” Moniz respondeu: “A esplanada está cheia!” E lá foi receber o cachê. “Fui buscar o dinheiro em notas de vinte e cinquenta [escudos]. E ele disse: ‘Agora divide lá metade para cada um.’ Respondi-lhe: ‘Ó homem, não é assim. O cantor és tu, eu só vim acompanhar.’ Depois de grande discussão lá aceitou receber duas partes. Ele tinha esse desprendimento material.”

Recorda-se ainda de outra história, também com humor, que nos ajuda a conhecer melhor o homem que faz parte do imaginário coletivo português: “Estávamos na Baixa da Banheira, e ele cantava “eu fui à terra dos bravos”. Esqueceu-se da segunda quadra e disse: ‘Agora canta o Moniz, porque ele é que é dos Açores.’ Desataram-se todos a rir porque perceberam que se esqueceu da letra.”

Atualidade da mensagem

Com e sem brancas, num ou noutro espetáculo, tal como acontece a qualquer artista, a mensagem de Zeca Afonso permanece para lá do tempo. Ontem, tal como hoje: “Tudo o que seja consciência e vontade de alertar o poder para o que, eventualmente, está mal ou se pode melhorar, é sempre atual. Como uma balança, se tirarmos o peso de um lado, o outro sobe. Se nos descuidamos, o outro prato da balança ganha força. Os que não querem o bem-estar de quem tem menos, voltam a ter o poder que tinham quando Zeca e outros começaram a contestar. Ele sempre defendeu os trabalhadores.”

“Antes sabíamos quem eram os vampiros, eles andavam perto. Agora podem entrar pela Europa, pela net… Não sabemos quem é que neste momento está, através de um sistema informático qualquer, a mexer no nosso bem-estar. A forma de luta hoje será diferente da do Zeca, mas há que estar atento. Antes, os vampiros falavam português, agora falam as línguas todas da Europa e do mundo”, acrescenta.

Há palavras escritas e cantadas ainda a ressoar em dias de céu cinzento: “Eles comem tudo/E não deixam nada.” Ou, ainda, noutros contextos, “a gente ajuda, havemos de ser mais/ Eu bem sei/ Mas há quem queira, deitar abaixo/ O que eu levantei”. Haverá sempre o “Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie”, do Venham mais cinco, para cantar em todas as estações do ano... E no dia 21 de março, na primavera, valerá a pena repetir mais alguns dos seus versos: “Semear o amor/ Ergue-te ó sol de verão/ Somos nós os teus cantores/ Da matinal canção.”

Sílvia Júlio