Editorial

Este ano faz três décadas que morreu José Afonso.

Em Zeca há o poeta-cantor, o militante político, o símbolo de resistência ao Fascismo e a utopia da Revolução cantadas. É impossível ouvir o cantor sem que as imagens desse tempo nos venham, nos arrepiem a memória e nos reenviem para esse imaginário.

Há, porém, uma outra e grande dimensão deste artista. A dimensão que, numa Fundação como a Inatel, não podemos secundarizar, sendo mesmo a de maior importância na vertente cultural de José Afonso.

Ele foi às fontes da nossa música popular, incorporou na sua voz a alma daquelas, contudo, não simplesmente as reproduziu, dando somente dimensão nacional a muitas das obras do nosso cancioneiro popular. Ele foi muito mais além. Partiu deste universo de sentimentos do País popular e recriou-o, inovou, cruzou com as heranças e os ritmos africanos e brasileiros, onde nos embrenhámos através dos tempos, e pôs neles as palavras certas que compõem esta alma, ou utilizou as já existentes que bem traduzam os sentires portugueses.

Canções como a Terra do Bravo, de matriz açoriana, ou a Canção de Embalar, onde nos envolve pelas estrelas e afetividades beirões, passando por Maria Faia, cântico épico-romântico, com tons andaluzes, de Malpica, são símbolos desta veia inovadora, que arranca da profundidade da nossa portugalidade a grandeza e a dignidade da Nação.

Partir da tradição dos nossos valores culturais nacionais, renovando-os e ligando gerações, regenerando as raízes que constituem Portugal, é o lema desta administração da Inatel.

Este número do Jornal Tempo Livre lembra este ano de aniversário da morte de Zeca, evoca-o, precisamente para ilustrar o exemplo de homem cívico e de cultura, e destacando assim aquilo que é a Missão da Inatel.

Também em relevo, neste número, os 150 anos do Teatro Trindade Inatel, a par da homenagem a este cantor-poeta-símbolo.

Afinal, Inatel, Teatro da Trindade e Zeca estão unidos pelo mesmo fado: a cultura portuguesa.

Francisco Madelino