Palcos

Eternidade entre quatro paredes

O espetáculo Huis Clos vai trazer a eternidade do inferno entre quatro paredes, à Sala Estúdio, de 16 de setembro a 9 de outubro.

Um homem e duas mulheres fechados numa sala. Têm memórias da vida, mas estão condenados a uma existência conjunta, onde se confrontam com a impossibilidade de domínio pleno do outro. Não há saída, somos aquilo que os outros pensam de nós, e haverá sempre alguém que nos julga, que nos condena, que olha para nós. O TL conversou com o ator e encenador Rui Neto para nos mantermos “de olhos bem abertos”.

 

A peça Huis Clos, de Jean-Paul Sartre, foi escrita durante a ocupação nazi em Paris, em 1944. Que ressonância tem este texto na sociedade atual?

Creio que vivemos agora num período diferente, mas similar. A ocupação não é nazi (se bem que existe uma ditadura financeira e um extermínio económico em marcha), mas assistimos a uma Europa fragilizada, fragmentada, sem saber como lidar com os ataques terroristas que surgem todos os dias. Com extremismo político a fomentar a violência das cidades e o declínio de valores sociais que tínhamos como garantidos. Uma Europa que se fecha na violência e no extermínio, onde questionamos quais os nossos próprios princípios e valores. O Huis Clos acaba por ser uma metáfora para a vida, apesar da sua ação se passar na morte. O confronto é entre cada um de nós, e entre nós e os outros, e é nesse confronto que Sartre afirma que “o inferno são os outros”. Cumprimos assim ambos os papéis, de vítima e carrasco. E creio que de uma forma linear isto aplica-se hoje ao mundo. Onde a culpa está de ambos os lados. Assim como a responsabilidade.

No início do seu projeto pareceu-lhe um texto datado, sem identificação evidente... Que motivação teve para avançar com esta escolha?

As teorias existencialistas de Sartre, sobretudo nesta peça, refletem sobre a Consciência humana e interessava-me abordar este tema. Os temas que rodeiam as personagens são em si mesmo importantes mas não creio que sejam aqueles que nos atormentam hoje. São fruto de uma sociedade que de alguma forma já não se encontra no mesmo sítio nem da mesma forma. Sofreu uma evolução. E numa primeira instância as situações nucleares da peça hoje têm outro tipo de resolução e de impacto social. Mas essa constatação não deixa de ser importante. O que me fez avançar foi precisamente a possibilidade de comunicação que esta peça tem com o mundo atual e com os grandes temas da Humanidade, e o desafio cénico que isso exige dos atores e da encenação. Mas achei que não fazia sentido nem dar destaque aos elementos mais datados nem contextualizar a ação nos nossos dias. O trabalho do público é precisamente criar essas analogias e desenvolver um pensamento crítico, concordando ou discordando das teorias de Sartre.

Hoje podemos encontrar novos sentidos nas teorias de Sartre?

Não sei se encontramos novos sentidos nas teorias ou se nos encontramos noutra realidade que nos permite questionar essas mesmas teorias segundo outras premissas. Nem sei se o próprio Sartre hoje concordaria com algumas das suas próprias teorias. Mas é engraçado perceber a evolução de pensamento e comportamento: Para Sartre tornar-se visível aos olhos dos outros é tanto passar a existir no universo do outro, como ver a sua própria existência reduzida pelo olhar do outro (numa impotência perante a impossibilidade de alterar aquilo que o outro pensa e reteve de nós, que será sempre uma visão redutora). Hoje em dia há uma enorme necessidade de nos expormos nas redes sociais, e de nos tornarmos visível a todos – como se ao contrário de nos reduzir, essa exposição nos ampliasse e nos conferisse existência e importância. Creio que Sartre ficaria arrepiado perante o FaceBook.

“O inferno são os outros”, frase célebre de uma das personagens. Então, não há fuga possível?

Não sei. Nem sei se concordo inteiramente com as premissas que originam essa frase. Interessa-me, no entanto, explorar a ideia de que estamos implicados e somos responsáveis nesse binómio “eu/outros”. Mas não vivo atormentado por achar que os outros dominam a minha existência. Talvez dominem, na medida que percebo que estejamos todos mais à mercê daquilo que pensam de nós, mais do que a real possibilidade de nos verem por aquilo que realmente somos. Aquilo que somos está fechado em nós, e vai connosco. Ficam os atos, fica a forma como interpretaram os nossos gestos, ficam as memórias segundo um ponto de vista e opinião particular de quem as viveu, e talvez tudo isso seja aquilo que nos define, que fique e que perdure. A impotência perante aquilo que o outro pensa sobre nós é que é o inferno – estamos à mercê de quem nos olha e dos seus pensamentos. Mas estas teorias são complexas e torna-se inglório e contraditório quando tento posicionar-me nelas.

Encenar Huis Clos pressupõe uma exigência particular no trabalho de ator?

Pressupõe sobretudo entender o ponto de vista do autor e fazer escolhas certas que permitam discorrer e comunicar bem a lógica de pensamento em que a ação da peça assenta. O conflito interior das personagens só é conflito se ator e encenador entenderem a problemática existencialista. Senão corre o risco do pensamento se perder nos elementos mais triviais e quotidianos que não creio serem essenciais nesta peça.

O que representa para si voltar à Sala Estúdio?

Uma possibilidade para continuar a desenvolver o meu trabalho enquanto criador, apoiado em termos técnicos e logísticos. Mas também o desejo de no futuro próximo merecer a confiança para criar um projeto para a sala principal, de forma mais sustentada.

Que memórias tem do Trindade?

Tem acompanhado o meu percurso, sobretudo enquanto criador. Fiz nele os primeiros projetos de criação coletiva (projeto Híbrida; Batalha), regressei mais tarde com uma criação a solo (Worms), foi neste teatro que fiz o lançamento do meu primeiro livro, com textos para teatro. Tenho muito boas memórias enquanto espectador de muitos espetáculos que vi.

T.J.

 

Música

Ciclo Mundos

Metá Metá, 15 de setembro, quinta-feira, às 21h30 | M6

O trio trabalha com a diversidade de géneros musicais brasileiros, utilizando arranjos económicos que ressaltam elementos melódicos e signos da música de influência africana no mundo, explorando o silêncio e o contraponto, fugindo das ideias convencionais. No espetáculo, o trio chama ao palco os músicos Marcelo Cabral (baixo), Samba Ossalê (percussão) e Sérgio Machado (bateria). Com a banda, Metá Metá revela o lado mais pulsante do cd, com grooves dançantes, e arranjos em que a polifonia explorada pelo trio se expande para dialogar agora com referências do rock, afrobeat e dos batuques brasileiros em geral.

DakhaBrakha, 22 setembro, quinta-feira, às 21h30 | M6

 

Um homem e três mulheres vindos da Ucrânia e vestidos com trajes tradicionais. Com os seus cantos polifónicos e toucas na cabeça, eles misturam a tradição com a modernidade. É um dos grandes fenómenos dos últimos anos no circuito das músicas do mundo. O quarteto ucraniano DakhaBrakha parte de melodias tradicionais do seu país, recolhidas em aldeias onde sobrevivem algumas dessas expressões quase esquecidas, pervertendo-as depois com um amplo dicionário de outras músicas resgatadas às mais variadas geografias – chamam-lhe “caos étnico”. Tão bela quanto estranha, esta súmula desafia classificações e tanto assenta em harmonias vocais feéricas como toma caminhos de um transe eminentemente físico.