Ficções

O testamento

 

Eu, Ervília Adelaide Esparguete Mendes, na plena posse das minhas faculdades físicas e mentais, conforme documentação anexa, aqui exponho as disposições testamentárias a serem cumpridas após o meu passamento. Naturalmente, a par dos valores materiais há os sentimentos e não posso deixar de os realçar num documento desta natureza.

Muito em particular no que se refere ao meu cônjuge, Manuel Emiliano Matias Mendes. Completamos quarenta anos de matrimónio à data em que escrevo e assim a presente decisão, que só será revelada após o meu falecimento, não previsto para os tempos mais próximos. Todavia, na possibilidade de o meu referido esposo atingir o estatuto de viúvo, a ele dirijo especiais palavras de encorajamento para o tempo de existência em que me sobreviver.

Nunca ele tentou que lhe concedesse estatuto de propriedade em qualquer dos bens da família, todos eles em meu nome por virtude de heranças. Manuel Emiliano nada possuía quando nos unimos pelo casamento, resistindo aos apelos de meus pais e avós, detentores da respectiva fortuna que tenho conservado. O amor falou mais alto. Ainda secretamente noivos, Manuel Emiliano sacudiu-se do seu modesto emprego, e com razão, o irrisório rendimento auferido não aquecia nem arrefecia as finanças do novo casal. Os meus rendimentos bastavam e sobejavam para manter o elevado padrão de vida a que eu estava habituada e ao qual ele, Manuel Emiliano, depressa se habituou.

No entanto, digo-te, Manuel, estranhei um pouco que sempre tivesses recusado ocupação como administrador em qualquer das minhas empresas ganhando assim remuneração por esforço teu. Alegaste, com a tua superior inteligência, que não te furtavas ao trabalho por ser incómodo mas sim pelo receio de não estares à altura de manter os negócios tão lucrativos. E assim temos continuado felizes, excepto nos pequenos dissabores provocados pela tua irresistível atracção por mulheres, algumas delas nossas amigas mas nenhuma, vá lá, pertencente ao Grupo Coral Trinados de Passarinhos, a que tenho a felicidade de pertencer. Muito apreciei que assistisses a parte dos ensaios e espectáculos do Grupo Coral Trinados de Passarinhos. E mesmo quando notei que os teus olhos se fixavam nas coxas roliças da Lalinha Guilhares, e com ela te escapulias a meio da sessão, esses pormenores não arrefeceram o prazer de ter escutado os teus aplausos.

Certo, houve um período em que não tive o gosto da tua presença nas actuações do Grupo Coral Trinados de Passarinhos. Tu lembras-te. Foi quando alojámos em nossa casa a francesa Laurette, a pedido dos meus primos residentes em Bordéus. Nessas ocasiões preferiste ficar em casa, a praticar o Francês e, como sempre, tiveste a minha compreensão. Só não gostei, confesso, quanto te ouvi, agarrado ao telefone, a comunicar com um dos teus pândegos amigos, talvez o Servilhas. Desculpa, Manuel Emiliano, mas achei deselegante aquela frase – “Já papei a francesa.” E isso que interessa se temos sido tão felizes? Pena que tenhas recusado fazer parte do Grupo Coral Trinados de Passarinhos, tens uma bela voz de barítono e podes imaginar o orgulho que seria cantar ao teu lado. Mas isto é uma insignificância no quadro da nossa harmonia que nem foi ensombrada pela tua asneirola de alterares um cheque que te dei para os teus gastos da semana. Meu malandro, meu querido malandrinho, conseguiste transformar mil euros em cento e um mil euros!

Lástima que tenhas derretido essa quantia no casino e não pudesses repor na conta os cem mil a mais. Era a intenção, juraste pedindo mil desculpas. Como não havia de desculpar? Nada faria ruir a nossa sólida união, nem mesmo aquela mentirinha de uma excursão com amigos quando, afinal, passaste esses quatro dias com a manicura Gilbertinha. Vim a saber quando recebi a conta do hotel do Algarve, especificando que uma parcela era gasto de “Dona Gilberta”, precisamente por serviço prestado pela manicura do hotel. Zanguei-me, eu? Achei piada e não seria por uma manicura que o nosso enlace deixaria de andar na ponta da unha.

Em conclusão, e porque a finalidade de um testamento é ser prático e objectivo, não se alongando em considerações sentimentais, lego todos os meus bens ao Grupo Coral Trinados de Passarinhos. Com uma única obrigação: promover anualmente um espectáculo de beneficência, com receita para o meu possível viúvo, Manuel Emiliano Matias Mendes. Ele ficará agradecido. 

Mário Zambujal