Memórias

Ângelo Torres

“Adoro voltar a Lisboa”

O ator, que também é um contador de histórias, gosta mais de chegar do que partir. Mudou tantas vezes de casa e escola, conheceu tantas pessoas e perdeu outras tantas, que talvez por isso sinta necessidade de ter um lugar para aterrar e ficar. Por mais voltas que dê na vida, apetece-lhe regressar a uma viagem de infância que lhe devolveu a autonomia. Porque até aí descobria o mundo ao colo da mãe.

 

Aos catorze, quinze meses, Ângelo Torres dava os primeiros passos na Guiné Equatorial desbravando ainda pequenos percursos. Começava a explorar o que o rodeava. Mas em breve deixaria de andar. “Até aos três anos fui paralítico. Apanhei uma paralisia infantil, a poliomielite. Quando voltei a andar, agarrado às paredes e aos móveis, a minha mãe agarrou-me pela mão para irmos à escola das minhas irmãs. Saí do meu quintal, onde havia muitas casas como se fossem um comboio. Devagar, fomos andando até Santa Teresita. Quando cheguei lá, a expressão da minha irmã mais velha marcou-me imenso, porque ela tinha puxado muito por mim. Naquele olhar estava a surpresa, o alívio e o espanto pelo meu esforço. A minha mãe admira-se por ainda me lembrar disto”, começa por indicar a tal viagem que lhe permitiu fazer as seguintes pelo próprio pé. 

Se não tivesse tido a oportunidade de voltar a usar as pernas, “viajaria na mesma de cadeira de rodas”, afirma com convicção. Mais tarde, aos oito anos, partiu da sua terra natal e foi de barco para Espanha. Uma viagem de 17 dias. A imensidão do mar inquietou-o. “Na altura não sabia nadar, mas ainda hoje tenho a impressão de que se me atirasse, conseguiria fazê-lo. Lembro-me de ter descido as escadas até ao varandim e balancei-me. O marinheiro, Manolo, jura a pés juntos que ia em direção ao mar. Continuo com a sensação de que se caísse, conseguiria nadar.”

Ângelo permanece um peixe fora de água mais tempo. Aos 12 anos, sai de Madrid para São Tomé e Príncipe, um mês depois da descolonização. “Cresci a ouvir falar da independência e, de repente, estava na terra dos meus pais. O que ouvia em casa tinha acontecido. Ver nascer um país é tão emocionante como ver nascer um filho, com a diferença de que aquele era um nascimento coletivo. Todo o mundo dizia ‘viva’, ‘a luta continua, a vitória é certa’. Tínhamos todos o mesmo sonho, íamos todos na mesma direção. Era o mesmo desejo, a mesma respiração, o mesmo tudo… Venho de uma família muito politizada. O MLSTP foi criado no quintal do meu avô. Sempre ouvi falar em nomes como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos… Mas quando cheguei a São Tomé a minha primeira desilusão foi com o aeroporto, que é uma coisa pequena. Eu vinha de Espanha, foi um choque.” O pai levou-o depois a passear de carro pelas roças, que iriam passar a estar sob a sua alçada enquanto ministro do Trabalho: “Juro que naquele tempo não percebia o porquê de tanto amor àquele pedaço de terra, àquelas árvores gigantescas, macacos a baloiçar, mosquitos… Os quatro anos que vivi em São Tomé questionei sempre ‘porquê?’.” As perguntas saíam em catadupa. Havia tanto para questionar. Sobretudo, o comportamento do ser humano, após a independência: “Porque é que aqueles camaradas, companheiros e amigos que conheci na Guiné e em São Tomé se tornaram inimigos, viraram as costas uns aos outros? Havia acusações, tentativas de apunhalamento pelas costas… Quando os conheci, tinham um objetivo em comum. Porque é que depois de o conseguirem se tornaram inimigos daquela forma? Aquelas pessoas que eu acreditava serem exemplares deixaram de o ser.”

Viver noutros lugares, em determinadas circunstâncias, abre os olhos para uma realidade até então desconhecida. Segue-se mais outra viagem até Cuba, onde estuda Engenharia Termodinâmica, com especialização em ar condicionado. Os ânimos aquecem e ali descobre a consciência política. Chega depois a Portugal, em 1986.

A primeira memória portuguesa é doce. Quando aterrou em Lisboa, apanhou o autocarro com a mãe. Viu uma pastelaria com uma montra cheia de bolos que pareciam apetitosos. A mãe deu-lhe quinhentos escudos. Gastou tudo em bolos. O doce tornou-se amargo. Próxima paragem: hospital. Não gostou de ficar à espera três horas para ser observado nem do atendimento. Houve coisas que mudaram, outras nem por isso. Volvidos estes anos, diz que já se sente de cá: “Em primeiro lugar sou benfiquista, depois lisboeta.” Adianta que vai pedir a nacionalidade portuguesa. “Adoro voltar a Lisboa, ver o Tejo… Acho que a saudade nasceu no Tejo. Quando o avião passa pelo Cristo Rei, Monsanto e, depois, na Segunda Circular faz-me a graça de passar por cima do Estádio da Luz… É uau! Depois de aterrar, apanho o táxi e o gajo começa a refilar; sei que estou em Lisboa. Adoro chegar.” Terminamos este somatório de viagens tal como começámos: com o verbo chegar. Porém, há outros lugares aonde quer regressar: “Não voltei à Guiné nem a Cuba. São etapas que preciso de fechar para me encontrar. Ainda estou em trânsito.”

Sílvia Júlio