Reportagem

Um chão três vezes sagrado

Do Mediterrâneo ao Rio Jordão, de Nazaré e do Mar da Galileia a Petra, no sul da Jordânia, dos anfiteatros greco-romanos de Jerash às ruelas de Jerusalém e a Belém, nas margens do deserto da Judeia: mais de dois mil anos de História ao alcance daquela que pode ser a viagem de uma vida.

 

Jornada das mais estimulantes e, apesar de incontáveis narrativas sagradas e epifanias, jornada intrigante, pelos muitíssimos mistérios que a região toma ciosamente à sua guarda. Jornada por uma terra três vezes santa, tantas quanto as religiões monoteístas que ali nasceram: a cada passo será o viajante lembrado desta milenar pluralidade.

O momento ou etapa culminante da viagem será sempre, para a maioria dos viageiros, a velha Jerusalém, com as suas azinhagas lajeadas e estreitas, os seus mercados, onde o timbre oriental tenta subsistir ao turismo religioso de massas, os distintos bairros intramuros cujo frenesim varia consoante os dias santificados de cada religião; e, sobretudo, os lugares sagrados, os lugares onde a pedra milenar, garantem os livros e a memória humana, continua a contar histórias primordiais, fundadoras. Lugares como a Basílica do Santo Sepulcro, a dois ou três quase íntimos passos da Via Dolorosa, da Mesquita Al-Aqsa e do Muro das Lamentações.

Se tanto mudou no mundo desde as estipulações da Tora e do Talmude, desde a fuga para o Egipto ou desde a Hégira, quantos gestos se repetem ali, há séculos e séculos, com um incessante e sempre renovado fervor? Ao fim de uma semana de peregrinações pelas muralhas que levam à Torre de David, pelas ruelas do bairro cristão em busca de vinho e, também, de pão ázimo e frutos secos - nos dias em que judeus e muçulmanos fecham as suas lojas -, pelas colinas que miram a cidade milenar coroada pela cúpula refulgente da grande mesquita, em sobe e desce até ao Monte das Oliveiras, atravessando o Getsémani, contornando o cemitério judaico, admirando os mosaicos da Basílica da Agonia, a perplexidade do viajante, sempre refém da inabalável pureza dos mistérios, condena-se a uma pergunta de delicada resposta, mesmo se a figura do patriarca Abraão, cara às três religiões monoteístas, tenha uma palavra sobre o assunto: como foi possível em assim tão reduzido chão se firmarem as raízes de uma tão diversa humanidade?

Galileia, memórias bíblicas

Mas antes de se atravessar a porta de Jafa, no lado ocidental, e a de Damasco, virada para norte e para o caminho da Síria, ponto de partida dos táxis colectivos que rumam à Cisjordânia, a Ramallah e a Belém, os roteiros perdem-se em voltas pela paisagem, por outros, muitos, mapas e cenários mil vezes invocados em antigas narrativas que se esforçam por lançar sentidos sobre uma das regiões mais conturbadas do planeta - e, todavia, uma das mais assiduamente visitadas.

A partir de Telavive podemos seguir directamente de comboio para Jerusalém, é certo, mas também podemos caminhar pela praia até à velhíssima Jafa, meio judia, meio árabe, cheia de memórias. Vale a pena a visitação: por detrás da variedade de superfície encontramos uma atmosfera urbana que também avistaremos em Akko, em Beit Sahour e em Nablus.  

Depois de Jafa e do roteiro da luminosa arquitectura Bauhaus da cidade nova, eis, portanto, uma alternativa a Jerusalém: seguir para Haifa e para Akko, cidadezinha árabe que Marco Polo visitou no século XII, quando ia a caminho do Império do Meio. Ou para Nazaré, a maior cidade árabe de Israel: aí, peregrinos e viajantes podem dedicar-se a um périplo por alguns dos lugares histórica e culturalmente mais representativos da Galileia, a começar pela Basílica da Anunciação. Tiberíades, uma das cidades mais importantes do judaísmo, provável berço do Talmude, não fica longe e o vizinho mar interior da Galileia é também um relicário de memórias bíblicas - o lago Genesaré de um rosário de milagres e curas e testemunha do Sermão da Montanha, pregado aos galileus a partir de um outeiro próximo. Cafarnaum, Canaã, Tabgha, o monte Tabor: míticos e místicos topónimos de uma geografia que também acolhe, num toque de prosaica e profana contemporaneidade, cenários ecoturísticos.

É numa vereda à beira de Tabgha (a uns minutos da Igreja da Multiplicação, que celebra o milagre da multiplicação dos pães) que encontro Gottfried, um andarilho alemão que o acaso fará atravessar no meu caminho, alguns dias mais tarde, durante a subida ao mosteiro do Monte das Tentações, em Jericó, na Cisjordânia. Nessa altura, barricados à sombra da montanha e com a esperança de convencermos alguém a abrir-nos os portões já fora de horas, Gottfried entreteve-se a treinar o seu alemão - praticamente a única língua em que se expressava - com um grupo de coreanos que logo se pôs a andar quando tomou conhecimento do horário “inflexível” do mosteiro. A cena adquiria, talvez, algo de inverosímil, mas não dizia o cineasta espanhol Luis Buñuel que o real já contém em si mesmo o surreal? Sentado junto ao portão do mosteiro (que haveríamos de conseguir visitar nessa mesma tarde, após teimosa negociação), eu via no horizonte o fio de água do Rio Jordão rodeado de verdes manchas agrícolas e logo a seguir a faixa azul do Mar Morto, enquadrada pela cordilheira montanhosa que acompanha a fronteira jordana. E ali mesmo, aos pés do Monte das Tentações, uma das cidades mais antigas do mundo, sem saber ainda do imensamente prestável taxista palestiniano que, já ao cair da noite, temeroso dos controlos militares israelitas, nos deixaria, ainda assim, à beira da estrada para Jerusalém.

Tesouros jordanos

Do cimo do Monte Nebo, na margem oriental do Rio Jordão, na Jordânia, voltamos a avistar o Mar Morto - e Israel na margem outro lado. O sítio é celebrado porque terá sido ali que Abraão entreviu pela primeira vez a terra prometida. Do lado de cá, estamos ainda dentro dos limites da Terra Santa. Dos milhões de turistas que visitam a Jordânia anualmente, uma parte vem pelo ecoturismo e outra, a maioria, pelo turismo religioso ou cultural: Amã e o seu teatro romano, restaurado e tão impressivo quanto os seus congéneres de Jerash, onde o assombro do viajante se rende também ao Fórum oval greco-romano, os esplêndidos mosaicos bizantinos da Igreja de São Jorge, em Madaba, o local de batismo de Jesus no Rio Jordão, os chamados "castelos do deserto", construções islâmicas do século VII situadas a oriente de Amã no caminho para o Iraque e para a Arábia Saudita (Azraq foi quartel-general de T. E. Lawrence durante a Revolta Árabe, no início do século XX), a sempre misteriosa Petra e o belíssimo deserto do Wadi Rum, lá no sul, à beira do Golfo de Aqaba e da Arábia Saudita.

Petra é, a par de alguns lugares notáveis do cristianismo, do judaísmo e do Islão, do Mar Morto, da cidade romana de Jerash, a grande estrela dos tesouros culturais jordanos e merece um parágrafo à parte. Sabê-lo-á quem se deparou com a curiosidade, não satisfeita, sobre a origem dos Nabateus, povo que abandonou o deserto para construir esta misteriosa cidade e que deixou também como herança os rudimentos da língua árabe. E sabê-lo-á quem, depois de andarilhar por um longo desfiladeiro, viu irromper diante de si, numa clareira de rocha e poeira, o mais famoso ícone de Petra, o templo Khazneh al-Faraoun. Ou quem, do topo de uma fraga, avistou ao longe o Jebel Haroun, que na Bíblia se chama Monte Hor, local sagrado para as três religiões monoteístas do Médio Oriente, e atentou no panorama lá em baixo. Um panorama de primeira água, arqueologicamente argumentando: o teatro romano capaz de alojar oito mil espectadores, os Túmulos Reais, a Avenida das Colunas, as ruínas de um templo cristão do século VI, adornado com preciosos mosaicos bizantinos.

Belém, a Natividade e uma proposta de paz

A Praça da Manjedoura é uma ampla ágora que se enche na noite de Natal com milhares de luzinhas de velas e cristãos de todo o mundo. A praça separa e une dois templos; de um lado, a Igreja da Natividade, com a sua porta baixíssima, e do outro, a Mesquita de Omar, em bicos de pés amparados por um minarete alto e elegante. Belém, na margem do deserto da Judeia, é um lugar relevante para as várias comunidades de crentes: ali nasceu o rei David, ali estão o túmulo de Raquel e a gruta onde se crê que nasceu Jesus. Existe em Belém uma importante comunidade cristã, embora o número destes crentes tenha vindo a diminuir - muitos deles emigrados por causa da instabilidade e da crise económica. Entre os que permanecem conta-se o comerciante árabe cristão Elias, que tem uma pequena loja a meio caminho entre o mercado e o polémico muro que separa os colonatos judeus do resto da Cisjordânia.

As comunidades cristã e muçulmana coexistem em Belém – conjugando-se o verbo com o seu inteiro sentido. É o que me diz Elias, ofertando-me, com o sorriso aberto desenhado por baixo de um abastado bigode, uma garrafa de água fresca. "O problema da Palestina não é religioso, nunca foi", assegura. Atrás do balcão há umas prateleiras com bebidas alcoólicas e tabaco e na parede está pendurado um calendário ilustrado com uma imagem de Nossa Senhora. Saio da loja com o convite para lá voltar depois da estância em Hebron. E com o número de telefone de Elias escrito num papelinho. "Vai tranquilo, ninguém te fará mal aqui, mas se tiveres algum problema, liga-me".

A Igreja da Natividade tem uma nobilíssima pátina; é, pode-se dizer, uma inestimável velharia bizantina, com as suas colunas coríntias e uma luz que não é deste tempo. Erguida no tempo de Constantino, foi destruída posteriormente e refeita no século VI. O aspecto de sólida fortaleza - e o apêndice da porta da humildade, que obriga os visitantes a dobrarem-se (e impedia, outrora, os cavalos de entrar) - lembra-nos as aflições destes templos no contexto das sucessivas Cruzadas e disputas religiosas na região. Visitá-la (tal como a Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém) em dia de excursão religiosa russa é um acaso de fortuna, tal a ênfase que veste a peregrinação. Com a ajuda do suave odor do incenso, o ícone bizantino de Nossa Senhora põe a memória a voar para uma nave repleta de imagens semelhantes algures no labirinto do Mosteiro de S. Panteleimonos, o mosteiro russo do Monte Athos, no norte da Grécia. Enquanto as devotas russas se concentram nas orações, é celebrada uma breve missa na gruta que fica por baixo do altar-mor e onde uma estrela de prata com catorze pontas assinala o local exacto do nascimento de Jesus. 

Antes deixar Belém há ainda outra visita a fazer nos arredores da cidade - um desvio que nos leva a uma pequena e insólita igreja ortodoxa. Beit Sahour é uma povoação com séculos de História, onde a comunidade cristã representa cerca de dois terços da população (desses, a esmagadora maioria é ortodoxa, apenas 8% são católicos romanos). O Novo Testamento celebra Beit Sahour como o Campo dos Pastores, mas o nome do povoado tem sido citado nos média, desde a primeira Intifada, pela atitude de resistência pacífica adoptada pelos seus habitantes. É lá, aliás, a sede do Palestinian Center for Rapprochement between Peoples, grupo que procura promover um ativismo sem violência, o diálogo e a convivência pacífica no seio da sociedade palestiniana e entre os atores políticos da região - com a ciência de saberem que israelitas e palestinianos estão condenados a entenderem-se, as autoridades da cidade chegaram mesmo a convidar cidadãos do outro lado do muro para ali festejarem o shabbat. Em Beit Sahour, burgo que sobreviveu quarenta e dois dias a um recolher obrigatório e a um cerco imposto pelo exército israelita, como me contava Elias na véspera, não podemos deixar de entender a voz do poeta palestiniano Mahmoud Darwish como um eloquente símbolo da determinação desta gente que insiste em aspirar por uma pátria: "Sofremos de um mal incurável chamado esperança".

Humberto Lopes

 

Viagens Inatel

Peregrinação à Terra Santa e Jordânia

Data: 17 a 26 de outubro

Informações: Tel. 211155779 | turismo@inatel.pt | www.inatel.pt