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Juntar tradição à modernidade pela música

António Chainho, o Grupo Coral de Beja e Sebastião Antunes atuaram na gala de apresentação do Ciclo Mundos, onde se juntaram Gisela João e Ana Tijoux, no Parque de Jogos 1.º de Maio, em Lisboa, no dia 30 de junho. Uma parceria entre a Fundação Inatel e Câmara Municipal de Sines para a divulgação da música que alia a tradição à modernidade.

 

À chegada estão fardos de palha cobertos com mantas coloridas tradicionais. Ambientes recriados a recordar retalhos do Alentejo. Ao fundo veem-se dois quadros simbólicos. Um do castelo de Sines durante o Festival Músicas do Mundo em 2010, outro da manifestação dos trabalhadores no dia 1 de Maio de 1974. Histórias que se cruzam, relações entre os mundos do trabalho e da cultura.

Para a Inatel, o Ciclo Mundos “reflete e representa os valores e objetivos pelos quais se pauta a atividade da fundação, no âmbito da salvaguarda e divulgação do património cultural imaterial, reafirmando nesta e noutras iniciativas o seu respeito pela tradição cultural popular portuguesa e internacional”. Francisco Madelino, presidente da Fundação Inatel, declara na apresentação desta iniciativa que “só tem medo da tradição quem não a tem” e há que “não ter vergonha da essência popular”.

Esta parceria é, por sua vez, para a Câmara de Sines, “um reforço da marca Festival Músicas do Mundo junto de novos públicos”. Nuno Mascarenhas, presidente do município, afirma durante a sua intervenção: “Espero que a parceria não fique só pela área cultural. Espero estar aqui mais anos para apresentar outro tipo de parcerias.”

Música fora dos circuitos comerciais

Neste fim de tarde, na Academia Inatel, onde se promove o Festival Músicas do Mundo e se apresenta o Ciclo Mundos, ouve-se a música tradicional portuguesa de António Chainho, Sebastião Antunes e do Grupo Coral de Beja. Entre os convidados está a fadista Gisela João que, ao som da guitarra de Chainho, cantou A Casa da Mariquinhas, uma letra de Silva Tavares já interpretada por Alfredo Marceneiro e Amália Rodrigues.

A cantora franco-chilena Ana Tijoux, depois de convidada para subir também ao palco, mostrou uma parte da energia que iria soltar mais à noite num concerto do Ciclo Mundos, no Teatro da Trindade.

O apresentador de televisão Júlio Isidro, que ajudou a lançar tantos artistas em Portugal, confessa que descobriu ali uma cantora. “Estive a falar com Ana Tijoux e disse-lhe que estava relativamente informado no que diz respeito à música da América Latina. Assim que falei nos Inti-lllimani e Quilapayún, disse-me logo que tinha tocado com eles. Contou, ainda, que foi a Cuba e tocou com o Silvio Rodríguez, que também conheço, Pablo Milanez e Violeta Parra. Portanto, hoje descobri uma cantora que está na linha de um determinado período até da História de Portugal, que tem a ver com o pós-revolução, onde todos esses grupos e essa música chegou a ter uma grande preponderância em Portugal e que se foi esbatendo a favor das playlists. Para já, só ouvi a Ana Tijoux a cantar uma cantiga, mas canta muito bem e o guitarrista é excelente.”

O veterano da televisão portuguesa afirmou ao jornal Tempo Livre que “a única coisa que vai distinguir os países daqui a uns anos é a sua cultura, mas não a mainstream, que essa vai ser globalizada também. O importante é sabermos que há muita música fora dos circuitos comerciais, que é um outro mundo. Esse mundo está fora do mainstream, está fora das listas para se passarem nas rádios, é a que não faz os seus grammys, mas que tem muita qualidade, sobretudo porque está alicerçada nas raízes culturais.”

 A partilha da tradição

Ligado à cultura, assente nas tradições, e ao trabalho quotidiano está o Grupo Coral de Beja. O porta-voz Rúben Lameiras revela que cantar a tradição “está no sangue”. Bebeu dos seus ascendentes o cancioneiro popular. E que é “normal” o cante alentejano. Para este jovem de 23 anos, o encanto está “nas letras, sonoridade e polifonia”. “É um cante que inicialmente foi cantado a cinco vozes. Hoje é só ponto alto e a malta jovem já faz outras invenções. Temos ali terceiras, quartas, quintas e oitavas vozes, o que torna uma harmonia fantástica.” Este grupo constituído por pessoas com idades compreendidas entre os 15 e os 25 anos cantou: “É tão grande o Alentejo,/ tanta terra abandonada!.../ A terra é que dá o pão,/para bem desta nação/devia ser cultivada.”

Rúben diz que a “tradição é o lado bom da vida, porque é onde as pessoas se juntam à roda de uma conversa ou de um copo de vinho para falar das tradições: ‘olha, a minha avó era costureira, o meu avô era alfaiate, eu canto umas modas, e tu não sabes esta moda?’ É um momento de partilha fantástico! Tenho pena de não haver um festival de tradições no Alentejo.” Estar na estreia do Ciclo Mundos é, nas palavras do jovem, “uma janela aberta para todo o mundo; esperemos que mais oportunidades nos surjam com esta vinda aqui.”

Entre os convidados estava o músico Carlos Alberto Moniz. Em declarações ao TL, sublinhou que a maneira de defendermos a tradição é com os jovens: “A única forma de manutenção de uma forma de estar de um povo é não esquecendo a tradição, mas também não nos fecharmos no que se fazia só antigamente.” O artista confessa não gostar quando apenas ouve falar “em construir o futuro”. E acrescenta: “Nós temos de construir o presente. E o presente é construído com a junção da tradição e o que se quer fazer para o futuro.” Sente-se otimista em relação ao que aí vem porque tem acompanhado o que é feito por vários músicos portugueses da nova geração: “Estou a par do que esta malta faz e há uma grande preocupação e respeito pelo que os outros já fizeram e na construção do que querem fazer para o futuro. Nunca esquecer que é preciso primeiro construir o presente e depois pensar no futuro. Não há futuro sem presente.”

Tradição à espera dos mais novos

Por seu turno, Sebastião Antunes, no final da sua atuação, disse que é possível casar dois mundos que podem parecer desligados: “A tradição só se consegue perpetuar no tempo com o aparecimento da modernidade. Em vez de pensarmos na tradição como uma coisa sempre antiga, eu prefiro pensar que ela é sempre moderna e que se vai renovando a si própria, porque vão aparecendo pessoas com ideias novas sem nunca perderem o contacto com as raízes.”

“Com base na música popular portuguesa”, prossegue, “vamos perpetuando-a no tempo até usando máquinas eletrónicas, dando sempre espaço para que possa continuar a ser uma coisa nova”. Uma das músicas que Sebastião Antunes levou ao palco na Academia Inatel foi A Cantiga da Burra. “Como esta música foi gravada com a maquinaria eletrónica e tem uma batida trance entrou mesmo em discotecas na região de Miranda do Douro. E é isso mesmo que se pretende. Que a música popular portuguesa não seja só para cantar na eira. Também é bom na discoteca aparecer música de cariz popular, que tem uma grande força para mobilizar as pessoas. Não imaginem que a tradição é um museu. A tradição está sempre à espera dos mais novos. Não só a oiçam, não só a apreciem, mas façam-na também”, apela.

A música como união entre os povos

Quem conseguiu chegar a novos públicos com a guitarra foi António Chainho, que por ali tocou, acompanhado à viola por Carlos Silva, e silenciou a assistência com sonoridades onde se harmonizaram variações clássicas do fado com “variações à Chainho”, como salientou Júlio Isidro. 

O guitarrista conta que, na Academia Inatel, foi interpelado por um jovem com lágrimas nos olhos. O rapaz partilhou que não conhecia o trabalho dele, mas que depois de ter assistido ao espetáculo dos 50 anos de carreira de Chainho, no Tivoli, ficou desperto para outros géneros musicais. O jovem contou-lhe, ainda, que estava na apresentação do Ciclo Mundos por ter “interesse em conhecer não só as músicas que nos impõem”. Já no fim do espetáculo, um senhor com uma idade bastante avançada aproximou-se do guitarrista para lhe dizer: “Fez-me lembrar o Armandinho”, considerado o pai da guitarra portuguesa. “Comoveu-me bastante”, revela emocionado.

António Chainho, que levou a guitarra portuguesa a outro tipo de ouvintes, considera positivo a Inatel juntar-se às Músicas do Mundo, porque, “ao fim e ao cabo, talvez não exista mais nada no mundo que possa unir os povos como a música universal”.

“A música é uma linguagem entendida em qualquer parte do mundo. É uma das coisas que irá despertar e unir ainda mais a povoação mundial. É importante que, o que a Inatel está a fazer em Portugal, noutros países haja as mesmas entidades que possam fazer a mesma coisa”, conclui.

 

Os sons do mundo ao vivo em Lisboa

O palco do Teatro da Trindade acolhe até ao final do ano concertos que alargam a oferta de música ao vivo, chegando a novos públicos. O diretor criativo do Festival Músicas do Mundo, Carlos Seixas, afirma que este Ciclo Mundos “desafia o público de Lisboa a escutar ao vivo regularmente uma boa aproximação do que será o verdadeiro som do mundo, que não é puro, monolítico, monolinguístico nem monogénero”. Questionado pelo TL sobre o que representa para o FMM trazer este ciclo ao Trindade, ele responde que é “uma honra e um desafio”. E justifica a sua resposta: “O interesse de uma instituição como a Inatel, pela sua história e pelo seu alcance, em associar-se ao FMM Sines valoriza o festival. Depois, é uma forma de manter a chama do festival viva durante mais dias do que aqueles que são os da sua duração em Sines e também um contributo para reforçar a sua presença junto de um público tão importante para nós como é o da Grande Lisboa.”

No Ciclo Mundos atuam alguns grupos que já tocaram no FMM e outros que nunca estiveram em Sines. Segundo Carlos Seixas, teve-se em linha de conta a “qualidade, diversidade e atenção às dinâmicas da música como é feita hoje no mundo, das que estão mais ligadas à tradição às que têm um maior contributo da cultura urbana, das migrações e das miscigenações de toda a espécie”.

O vocalista dos U2, Bono Vox, disse um dia que “a música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas”. Na opinião de Carlos Seixas, “o mundo é demasiado complexo para que um único fenómeno, mesmo tão poderoso quanto a música, o possa mudar. Mas a música pode dar o seu contributo.”

A música é, segundo as suas palavras, “uma arte que revitaliza a força do diálogo e evidencia a importância da diversidade combatendo os preconceitos. Acreditamos que a convivência entre culturas não só é uma inevitabilidade como um progresso.”

 

Próximos concertos no Teatro da Trindade Inatel

Em setembro:

. Dia 15: Metá Metá (Brasil)

. Dia 22: DakhaBrakha (Ucrânia)