Entrevista

“A cabeça é uma arma”

A cantora franco-chilena levou a sua energia ao Teatro da Trindade, no âmbito da iniciativa Ciclo Mundos. Jovens, adultos e crianças levantaram-se das cadeiras para dançar ao som de músicas como Antipatriarca, Liberdad e Saca la Voz. O TL entrevistou Ana Tijoux, no camarim, momentos antes de subir ao palco.

 

É filha de pais chilenos, exilados políticos em França durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, tendo nascido em Lille. Acontecimentos que a influenciaram na maneira de pensar e na forma de fazer música: “Não pode haver uma separação entre a identidade familiar, o que sou e a forma como observo o mundo”, revela. Seguiu a via da música, porque é assim que se sente melhor a comunicar com o planeta, mostrando as suas ideias para o poder revolucionar, nem que seja um milímetro. No entanto, defende que a música é apenas “mais uma ferramenta dentro do pensamento crítico”.

 

Nasceu em 1977. Segundo a astrologia oriental é o ano da serpente. No último verso do tema 1977 diz: “o ano em que nasceu a cobra”. Ao longo de 39 anos, acha que é mais intuitiva ou mais racional para arquitetar o seu percurso artístico?  

Sinto-me uma pessoa com muitas capacidades de mutação. Tenho muitos defeitos, mas dentro das virtudes, creio que a serpente dá a capacidade de mutação permanente em termos criativos. Assumo totalmente a mutação, o movimento.

Que influências tiveram na sua vida os acontecimentos relacionados com o exílio dos seus pais em França?

Tudo. Creio que todas as migrações são políticas – todas. O que influencia totalmente as conversas que tens em casa, o tipo de visão que tens sobre o mundo, as perspetivas, o pensamento crítico, a construção educativa. Tudo isso se articula com uma perspetiva do mundo que tem a ver com a identidade. Não pode haver uma separação entre a identidade familiar, o que sou e a forma como observo o mundo.

Sente-se mais latina ou francesa?

Totalmente latina. Jamais vou negar que nasci em França e que tive formação na escola pública francesa. Quando estou no Chile sinto-me cómoda. Não sei como explicá-lo, é algo que te chama, é a tua gente, a tua terra, a forma de comer, a forma como se comunica. Na América Latina há uma coisa muito particular, também na música…

As suas letras versam sobre o pós-colonialismo, feminismo, ambiente, justiça. Há quem considere que ‘a música é uma arma’. Acha que as suas músicas podem ajudar a matar alguns preconceitos?

Creio que a cabeça é uma arma. A música é mais uma ferramenta dentro do pensamento crítico. Não acredito que a música seja a única ferramenta de pensamento crítico social. Acho que é uma tarefa social de todos, quer sejam doutores, sociólogos, engenheiros, agricultores. Creio que a arte é uma ferramenta extremamente bonita porque atravessa muita gente.

A propósito do tema Antipatriarca, do disco Vengo... Há mulheres que preferem dizer que são femininas em vez de feministas. Qual é a sua escolha?

Não sei, sinto-me feminina, porque tenho um lado masculino muito desenvolvido. E tenho amigos masculinos com um lado feminino muito desenvolvido. Porque digo masculino? Porque se associa sempre o masculino às capacidades de autogestão. Mas isso também é muito feminino. Não tenho os conceitos muito claros. Há coisas que se misturam e até hoje estou a tentar compreender. Creio que a educação que tivemos, inclusivamente na escola, foi extremamente machista sem nos darmos conta. Há, no trabalho quotidiano da nossa sociedade, que limpar a maneira como cada um fala. Eu tenho dois filhos e pergunto-me porque é que o meu apelido está em segundo lugar? Porque é que a mulher está em segundo lugar, mesmo em relação à maternidade? Temos de continuar a questionar-nos. Há pouco tempo li um livro muito interessante... Porque é que são as mulheres que têm de tomar contracetivos todo o mês, quando, na verdade, somos férteis quatro dias e os homens trinta? Nós estamos habituadas a assumir a responsabilidade. É uma violência de género extremamente normalizada. Desnormalizar a violência passa por uma palavra em casa, na escola, na forma de falar, na música. É uma articulação de pensamento quotidiano.

Tem dois filhos, de onze e de três anos. A maternidade alterou a sua visão do mundo e refletiu-se artisticamente?

Em todo o sentido. A maternidade é uma mudança radical. É complicadíssimo porque vai afrontar o teu ego, o teu tempo. Quando me perguntam o que mudou na tua vida com os dois filhos, eu questiono: “Perguntam o mesmo aos homens?” Não é muito comum ver nas entrevistas aos músicos: “Mudou por ser papá?” Mas às mulheres perguntam sempre. E isso é muito machista de forma automática. Os homens também mudam. Os papéis são partilhados.

Quando compreendeu que a música era o seu caminho?

A música foi uma via de comunicar. Foi algo natural, cantando muito mal ao princípio. Mas estou convencida que o erro é uma parte fundamental da composição e que todos erramos de forma permanente. A música emociona-me, toca-me e atravessa-me. Foi por aí.

Não tem medo de falhar?

Sim, obviamente que tenho. Mas a questão não é o medo, é superar o medo. Errar é natural, cair é natural. O erro é necessário, é um método de aprendizagem extremamente importante. O erro também dá outra perspetiva a respeito de algo.

Um exemplo que a tivesse obrigado a superar-se?

Tenho milhões [risos]. Na indústria musical, quando és jovem tens muitas expetativas... Não sabes tudo o que queres, mas depois sabes o que não queres. E com isto vai-se construindo passo a passo o caminhar.

O que traz a sua música às causas que defende?

Não creio que a minha música ‘traga’. Eu alimento-me de muitas causas que observo. A música não vai revolucionar o mundo, a arte não vai revolucionar o planeta, é um acompanhamento histórico do processo social, de coisas importantes que se estão a passar. Não sei se trago algo, mas o processo apaixona-me.

Onde é que uma mulher, como a Ana Tijoux, que se afirma e luta pelas suas convicções vai buscar a paz de que precisa?

A luta e a paz não são diferentes. A luta é pela paz. Uma luta por uma esperança de viver neste mundo de maneira diferente. Uma luta por acreditar noutra forma de viver na economia. Uma luta por acreditar que há outra forma de viver neste planeta. E por acreditar, finalmente, que teremos outra forma de nos relacionarmos com os outros em sociedade, incluindo na música.

Mas onde é que encontra os momentos de tranquilidade?

Faço por meditar, de vez em quando, porque este planeta está louco e eu estou louca com ele. Os humanos estão loucos e enlouquecemos o planeta [risos]. Procuro sempre maneiras de estar em casa, fazendo um chá, conversando. A conversa acalma-me. Aquela conversa que te muda um milímetro do pensamento: ‘Cresci um pouco ou falta-me aprender muito mais.’ Para mim isso é um momento de calma, paz e também de muita ansiedade.

Natália Correia, escritora e deputada portuguesa, escreveu em 1983:Acho que a missão da mulher é assombrar, espantar. De resto, não é só a mulher, todos os seres humanos têm que deslumbrar os seus semelhantes para serem um acontecimento.” Em que circunstâncias podemos ser um acontecimento para os outros?

Quando nós mesmos nos dermos conta. A História o dirá. A História determina o que é ou não acontecimento. Quando acabamos por mover um milímetro da História ou criar um novo pensamento em todos os âmbitos... Tempo e História determinam quem faz ou não faz um acontecimento.

Eduardo Galeano disse: “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.” Qual o eco que estas palavras encontram dentro de si?

Um artista tem de se questionar permanentemente e o humano, em geral, de uma forma revolucionária. Não deve cair no autoflagelo mas no questionamento constante para continuar revolucionando. Há que criar um movimento revolucionário em toda a ordem, insisto, na Biologia, Engenharia, Medicina, Música, Arte, Matemática. É uma revolução permanente, uma roda gigante que se vai movendo.

Por falar em movimento, para quando um novo disco?

O disco Vengo é de 2014 e desde então tenho-me sentido muito lenta no processo de entender como a música se repercute. O tema Antipatriarca, por exemplo, muitas crianças o cantam. E eu digo: ‘Uau! Sou responsável.’ No próximo ano talvez saiam alguns temas, mas gravar um disco tem de ser com calma, sem o stresse da indústria que quer juventude e rapidez. Não quero ir rápido, e está tudo bem.

Como é estar em Portugal?

É a segunda vez que cá estou. Estou a observar, a sentir... Questiono-me sobre este país que teve tantos anos de ditadura. Ainda estou a tentar compreender, perguntando: ‘como foi?’ Nós tivemos 17 anos, superámos a ditadura. Isso repercute-se no comportamento, sexualidade, educação, música, arte, em tudo. Tenho de vir mais vezes para entender em que é que isso se repercutiu na sociedade portuguesa. Portugal dá-me muita curiosidade.

Sílvia Júlio e Teresa Joel