Saberes

“O mais precioso património nacional...”

Há umas semanas, em pleno centro Histórico de Sintra, com pompa e circunstância e no âmbito da comemoração da simbólica data de 25 de Abril, o Presidente da República inaugurou o designado News Museum. Na fachada, a escassas dezenas de metros do Palácio Nacional de Sintra, apenas os topónimos Sintra e Lisboa escaparam à impositiva presença do idioma Inglês através do qual, em grandes faixas, se anuncia que o visitante vai entrar numa media age experience, assim mesmo e sem qualquer tradução.

Na consulta à respectiva página digital, também o potencial interessado não poderá queixar-se de escassez de termos naquela Língua. Por exemplo, a propósito da matéria noticiosa que o religioso assunto de Fátima também encerra, talvez não fosse de esperar mas lá aparece uma surpreendente grassroots, embora entre aspas… E, durante a pesquisa, entre muitos outros, vai deparar com bad news, public relations, freedom house, social media, spin Wall, quiz, scoop, newstv, stop & go, lounge, dark side, etc.

Actualmente, em Sintra, na minha querida Sintra – cuja sede do concelho, há dezenas de anos, é vítima da mais perniciosa cultura do desleixo – está em nítida expansão a servil prática patente nas considerações anteriores. Objecto de uma campanha dos comerciantes locais, até a banal e portuguesíssima artéria que dá acesso aos Paços do Concelho foi recém-baptizada como shopping street

Como estão verificando, neste número do Tempo Livre, preencho a minha coluna de modo algo diferente do habitual. Ao chamar a atenção para atitudes nada consentâneas com a defesa da Língua Portuguesa, o mais precioso património nacional, que não deveria ser sujeito a estas misturas grosseiramente importadas, ainda gostaria de recordar um tema que, de algum modo, se relaciona com esta abordagem.

Trata-se do já famoso topónimo referente à sexta maior ilha do planeta que é território indonésio. Quando, há cerca de quinhentos anos, os portugueses que por lá andaram, ao pretenderem referir-se-lhe por escrito, fixaram a forma Samatra. Mais tarde, com idêntico objectivo, os ingleses registaram-na como Sumatra, com u, porquanto, só assim, poderiam pronunciar o a fechado da primeira sílaba, e muito bem, como faziam os nossos.  

Entretanto, a subserviente e bacoca patologia que ataca muito portuguesinho, fazendo-o render-se ao fascínio de tudo quanto é estrangeiro – e, no caso vertente, apenas me refiro à Língua Inglesa – logo afectou escreventes e falantes menos bem preparados que passaram a escrever e a dizer Sumatra com u. Porém, de vez em quando, como o caso volta à ribalta, já parece haver certa tendência para assumir que, de facto, Samatra é a forma correcta.

Em próxima oportunidade, regressarei a este assunto. Para que conste desde já, tenham em consideração que, entre os estudiosos, esta e outras palavras análogas até beneficiam da curiosa designação de torna-viagem, relacionadas que estão com as lusas andanças por esse mundo de Cristo.

João Cachado

[O autor escreve de acordo com a antiga ortografia]