Palcos

Da arte de divertir e outras emoções

Com “As Levianas em Cabaré Vaudeville”, da Companhia Animée, a sala Eça de Queiroz, nos dias 17 e 18 de junho, vai respirar a sonoridade de um suave português do Brasil, música, teatro e humor. Ainda este mês, o humor de “Esperança” e a surpreendente “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto

 

Estreia-se em Portugal aquela que é considerada a primeira Banda de Palhaças brasileira, numa digressão por Lisboa, Alcobaça, Fafe e Cabeceiras de Basto, com os apoios do Incentivo Cultural do Funcultura e do governo do Estado de Pernambuco.

Em conversa com o Tempo Livre, antecipando a apresentação no Trindade, Enne Marx, atriz/palhaça, também responsável pela assessoria artística e criação do espetáculo, diz: “As expectativas em relação ao público português são as melhores possíveis. Gostamos do sotaque e da maneira de falar, estamos a pesquisar a gastronomia, as ‘gírias’ e com certeza levaremos isso para o espetáculo.”

“As Levianas em Cabaré Vaudeville” contam a história de quatro palhaças que participam numa audição para um musical. Não se conhecem. Nenhuma é aprovada no teste e juntas resolvem criar uma banda. Este ponto de partida remete para a ideia de que as dificuldades no percurso artístico, muitas vezes, indicam caminhos mais compensadores. Enne Marx comenta: “De certa forma perpassa por esse tema sim, de unir esforços, talentos, desejos. Mas, também a subversão da natureza humana, como as palhaças resolvem os seus obstáculos mostrando os ‘ridículos’ e o caminho para uma diversão de humor, onde as pessoas possam sentir-se contempladas pelas diversas situações apresentadas em cena.”

 “É preciso apenas ser verdadeiro para ser feliz”

A dramaturgia compõe-se muito pela natureza musical a partir da ‘audição’ e das tentativas de homenagearem divas, como Edith Piaf, La Lupe, Nina Simone, Billie Holiday. Com um reportório especial, as palhaças tocam, cantam e divertem-se a narrar, como num flashback, a formação da banda. “Com o Cabaré Vaudeville queríamos vivenciar esta linguagem de cenas diversas que se complementam apenas pela relação sem necessariamente ter uma lógica”, explica a atriz.

Desconhecendo ainda a interação com o público português, Enne refere que já atuaram na Áustria: “Uma terra muito mais ‘fria’ no seu contexto histórico e, no entanto, o público divertiu-se e aplaudiu de pé. O público é como um espelho. O palhaço reflete sempre no outro.” Quando estão em cima do palco sentem a liberdade de serem inteiramente como são, construindo uma metáfora com base na relação que se estabelece entre as palhaças e as divas a quem rendem homenagem. Enne Marx acrescenta: “Ser palhaça é ser e não representar. Não nascemos para ser perfeitos, mas para aprender com os erros. O palhaço está sempre em risco, e contente que o erro seja uma caixa de surpresas que quando aberta, naturalmente provoca o riso”.

Durante dois dias, em Lisboa, haverá tempo para muitos risos e sorrisos. “Esperamos que sim! Fazemos o que amamos e escolhemos para as nossas vidas. É preciso apenas ser verdadeiro para ser feliz”, conclui.

Com direção de arte de Marcondes Lima, o elenco é constituído por Enne Marx, Juliana de Almeida, Nara Menezes e Tâmara Floriano. Em cena nos dias 17 e 18 de junho. O espetáculo, para maiores de 16 anos, tem a particularidade de ser acompanhado por uma tradutora de língua gestual.

 

Esperança

O ator César Mourão regressa ao Trindade na pele de Esperança, uma simpática e divertida octogenária que tem opinião e alguns segredos. A morte chega para todos mas, se depender da vontade de Esperança vai agarrar-se, enquanto puder, à predestinação do seu nome. Como ‘a esperança é a última a morrer, mesmo sabendo que o fim está próximo, ainda sonha em reencontrar o grande amor da sua vida. Em cena de 22 de junho a 10 de julho. Espetáculo para maiores de 16 anos.

 

Sala Estúdio

 

Terra Sonâmbula

 Uma atriz, Rosinda Costa, evoca ações, espaços, tempos, personagens e emoções do romance de Mia Couto, Terra Sonâmbula. A ação decorre num lugar onde a guerra tinha morto até a estrada, um velho e um miúdo que procura os seus pais seguem caminhando, bamboleantes, como se tivesse sido esse o seu único serviço desde que nasceram. Assim começa Terra Sonâmbula, por aqui seguirá o seu caminho, através da transposição para o teatro desses traços tão marcantes da essência, da forma de comunicação e singularidade de Mia Couto.

Dramaturgia e encenação de Nuno Pino Custódio, em cocriação com Rosinda Costa, Alexandre Barata e Pedro Fino, produção da ESTE – Estação Teatral.

Em cena até 26 de junho. Espetáculo para maiores de 12 anos. Conversa com o público, após o espetáculo, dia 16 de junho.