Memórias

Clara de Sousa

De vespa até Trás-os-Montes

A pivô da estação de Carnaxide lembra a viagem que fez aos dez anos, agarrada à barriga do pai, numa vespa 125, de São Domingos de Rana a Filhagosa. Foi como se tivesse atingido a maioridade: “Senti-me crescida. Houve ali uma passagem de nível qualquer”, conta, divertida. Eis a viagem que clareou o mundo de Clara.

 

Finais dos anos setenta. Os pais de Clara de Sousa deslocavam-se para todo o lado na vespa vermelha. Habitualmente era a mãe e o pai que atravessavam o Marão de mota. Mas daquela vez aconteceu a mãe e o irmão irem de comboio. Clara iria estrear-se na grande viagem que os adultos também faziam de vespa. Que acontecimento!

“Foi talvez em 1976/77. Íamos pela Nacional n.º 1. O meu pai fez paragem para o almoço em Peniche. Aproveitámos para ir à lota comprar sardinhas. Lembro-me tão bem… Saímos dali e andámos mais um pouco de mota até pararmos num espaço à beira da estrada, onde as pessoas podiam fazer refeições. Fizemos uma fogueira e ali assámos as nossas sardinhas. Deliciámo-nos com elas em cima do pão a pingar. Maravilhosas! Era verão, na altura da sardinha gorda e boa”, relata como se estivesse ainda a saborear a iguaria ao lado do progenitor.

Seguiram viagem para Angeja, Aveiro, para “dar um beijinho” à família materna. Prosseguiram até Vila Nova de Gaia para visitar ainda os tios. E depois o caminho até ao Marão, “subíamos a uns 20 ou 30 Km à hora, em curva e contracurva, era uma experiência ir de vespa. Passávamos por Vila Real, tínhamos uma reta que ia dar diretamente a Vila Pouca de Aguiar… E ainda tínhamos de subir até Filhagosa. Era um dia inteiro.”

Durante todo o percurso havia ainda tempo para parar outra vez e comprar um melão de casca verde aos vendedores junto das estradas secundárias. Via, com curiosidade, o pai a carregar nas extremidades do melão para ver se estava bom. Abria um quadradinho para provar e atestar que era doce. E sabia mesmo bem. Muito bem.

Há momentos que ficam gravados para sempre. Que fazem parte da identidade de uma pessoa. “Tudo o que está relacionado com a infância tem um sabor especial, é como a comida das avós e das mães. São memórias de conforto.”

Quando chegavam ao destino havia batatas e couves com bocados de chouriço cozidos em panela de ferro. Ela dispensava os enchidos. Ficava bem apenas com os tubérculos e os legumes. Há caldos que o palato não esquece, por mais anos que passem.

Todas estas memórias cruzam-se com muitas outras. Estar na ‘terra’ três meses, andar descalça no alcatrão quente, ir para o rio lavar roupa, fazer rodízios e pôr na cabeça para levar, feita equilibrista, o alguidar cheio, como faziam as mulheres dali.

Mais: assaltar quintais para tirar maças, entrar por “caminhos sombrios” da serra da Padrela e encontrar lagos, onde as crianças se atiravam “sem qualquer consciência de perigo numa água fresquíssima”.

“Eram situações de liberdade e de aventura como faziam um pouco os Cinco [de Enid Blyton]. O que fazíamos parecia ser tirado de um livro desses que a gente lia nos anos setenta”, recorda.

Quem leu os livros dos Cinco e dos Sete e outros de aventuras estava sempre à espera de viver coisas semelhantes. Quem não tem memórias destas? Ou ainda de tomar banho depois de se aquecer água à lareira ou de se sentar à mesa à luz do candeeiro antigo de petróleo que iluminava as refeições em família. Na altura, Clara bem reclamava da escuridão: “Oh meu Deus, mas ainda não há eletricidade nesta terra? Mas que atraso de vida!” Hoje, olha para trás e conta aos filhos a memória das diferenças que se viviam na cidade e na aldeia. Foi aí, nessa diferença, que viveu instantes que não voltam mais e que lembra com doçura.

É na simplicidade que está o melhor da vida. O essencial mora ali. Naquelas férias de verão. Ela até poderia falar da viagem que fez no ano passado às Maldivas onde descobriu uma nova paixão: snorkeling. O fundo do mar também a ajudou a encher o coração. Mas a alma só ficou cheia – talvez a transbordar – nas férias da ‘terra’, depois de ultrapassar as barreiras do Marão, em cima de uma vespa, abraçada ao pai.

Sílvia Júlio