Reportagem

Na terra do jaguar de olhos de jade

De Mérida, capital cultural do Yucatán, a Playa del Carmen, na costa oriental da península, de Uxmal a Chichén Itza e a Tulum: um roteiro por alguns nobres lugares da velha civilização maia, até às águas cálidas do Mar do Caribe.

 

Ainda não são onze da manhã e o centro de Mérida, a capital do Estado do Yucatán, está imerso numa animação mais típica de um fim de tarde. Há petiscos à venda em botecos ambulantes, música que parece romper de todos os pontos cardeais, do Parque Hidalgo ao Parque de Santa Lucia, no Zócalo (a sempre carismática praça central de todas as cidades mexicanas), no parque Las Américas, nos terreiros sombreados por árvores centenárias. E há famílias e crianças e balões e odores de tamales e enchiladas e outras armas de arremesso da gastronomia mexicana, tudo certamente temperado com aqueles chiles arrebatados que estavam à venda na véspera no Mercado Municipal Lucas de Galvez. E danças: há pares das idades todas que há, ou quase, rodopiando ao ritmo de mambos e salsas e outros estilos embalados por trombones, trompetes e tambores, mais uns quantos saxofones e marimbas.

“Mérida en Domingo”: o programa de festas que anima a cidade já tem quase três décadas e continua a atrair multidões. A capital cultural do Yucatán (que se prepara para ser Capital Americana da Cultura em 2017), uma das mais antigas cidades mexicanas, não tem apenas selectos e interessantíssimos museus – o mais ou menos recente (inaugurado em 2012) Gran Museo del Mundo Maya, com a sua colecção de peças originárias de algumas das cidades maias da região, pode ser um inestimável prólogo ao roteiro das estações arqueológicas de Mayapán, Uxmal, Sayil, Kabah e Labná, entre outras. A animação cultural de Mérida tem tanto de desafectada quanto de ecléctica manifestação que abarca iniciativas diversas, de exposições a actividades didácticas e recreativas infantis, bailes populares, danças tradicionais, apresentação de cantores/compositores autóctones e muito mais. “Corazón de Mérida” é outra iniciativa municipal que de quinta-feira à noite até domingo transforma o Zócalo e as ruas adjacentes em palcos de esplanadas onde os yucatecos se entretêm a degustar “botanas”, os primos americanos das tapas espanholas. Para o forasteiro desembarcado de outros soturnos lugares, eis uma espantosa revelação da vitalidade cultural da epicurista gente yucateca, que parece fadada a não deixar por mãos alheias a observância de alguns dos conselhos “existencialistas” do Livro de Chilam Balam, um dos livros sagrados dos Maias. “Não é vosso destino passar a vida sentados. / Assim é também o destino do tempo / E o tempo é o único assunto que é eterno, / Que existe para sempre. / Porque nunca se senta duas vezes no mesmo assento. / Ide. Construí e trabalhai. Para sempre/ Não avança, antes se afunda no passado, aquele que lamenta. / Ide. / A eternidade chama-se instante. / Esse instante que é o de agora."

Mérida tem outros sortilégios que guiam os passos do viajante, como a arquitetura de inspiração hispânica (o centro histórico é um espantoso relicário de arquitetura colonial), o grande Paseo de Montejo a imitar os Champs Élisées e a gastronomia que combina receituário maia com heranças espanholas. Com o calor tropical, dir-se-ia que tudo isto tem de ser vivido com alguma contenção, desígnio quiçá pouco exequível nestas latitudes e ainda para mais se o viajante for daqueles que deseja ver Roma de fio a pavio em poucos dias.

Abre-se o mapa, para acertar a agenda temprana (o autocarro para Uxmal larga ao amanhecer) e logo se vê que, enredadndo planos e roteiros, são muitos os apelos da Península do Yucatán: as estações arqueológicas maias, a floresta subtropical, o ecoturismo e a beira-mar caribenha e as suas águas esmeraldinas e tépidas, muito assediadas pelo turismo, como na cada vez menos imodesta Playa del Carmen, mas ainda conservadores de um ou outro recanto que lá vai conseguindo, por milagre, acautelar a castidade possível, sobretudo no litoral sul de Quintana Roo. Tanto para os sempre tão poucos dias que dura a viagem pode desalentar o viajante metediço, se curioso for à maneira de Ibn Batuta, o andarilho de Tânger que gastou anos e anos de vida em andanças que se alongaram até à Índia e que, mesmo assim, ainda deixaram muito por ver e compreender.

Esplêndidas ruínas

A escalinata da Pirâmide do Adivinho, em Uxmal, é íngreme, mas há quem não tema desafiar a contrariedade. Lá do topo, a cerca de quarenta metros de altura, a vista é exemplar das paisagens dominantes no Yucatán, um imenso oceano verde (a asserção vale para a época das chuvas) de onde irrompem estruturas remanescentes das cidades maias. A pirâmide, de base oval, é uma das mais paradigmáticas construções legadas pela civilização maia.

São inúmeros os vestígios arqueológicos dispersos pela Península do Yucatán e pelos territórios vizinhos do Belize, Guatemala e Honduras. Muitos deles encontram-se encafuados no meio da selva, por descobrir, e não há muito tempo atrás se anunciava, aliás, o achado de mais algumas povoações maias. Lagunita e Tamchen, no Yucatán, e Chactún, no vizinho Estado de Campeche. Outras cidadelas e centros religiosos maias houve que desapareceram após a chegada dos conquistadores, substituídos, por vezes, por estruturas urbanas coloniais. Em Mérida, no espaço onde se situa o Zócalo e a catedral, há-de o viajante lembrar-se do que ali ficou apagado, fisicamente, para sempre: o centro cerimonial e religioso da cidade de T’ho. As pedras que o erguiam foram transformadas em esteios da catedral cristã.

"El muro al sol respira, vibra, ondula, / trozo de cielo vivo e tatuado: / el hombre bebe sol, es agua es tierra": talvez estes versos tenham sido segredados ao poeta mexicano Octavio Paz pela memória que se conserva na pedra de Uxmal, um dos principais centros religiosos do Yucatán. A esplêndida arquitetura e a profusão de elementos decorativos de significação religiosa alimentam as peregrinações circulares do viajante e a sua paciente espera pela hora do crepúsculo, momento em que a luz suaviza a dureza da pedra e a ornamentação se mostra mais contrastada e perceptível.

A estética Puuc, que corresponde a um sofisticado estilo decorativo e que reencontraremos no dia seguinte em Labná, Sayil e Kabah, sítios arqueológicos das imediações de Uxmal, está plasmada na fachada do chamado Palacio del Governador e na sua decoração geométrica, repetida num ritmo quase hipnótico, comandado pelas máscaras estilizadas do deus Chaac, o deus da chuva. A designação de Palacio del Gobernador corresponde a uma especulação, tal como a de Cuadrángulo de las Monjas, outra das mais impressivas estruturas do conjunto de Uxmal. Ao tempo da conquista espanhola supunha-se que o edifício teria sido habitado por sacerdotisas; se o imaginário com que os turistas ilustram as suas leituras vai sendo composto com estas “mitologias”, convém assentar os pés na terra e fruir de forma mais ciente o panorama, mesmo se ele reflete uma fase final de estilo Puuc, menos inspirado mas sempre fiel a lógicas de repetição: da serpente, de figuras humanas, de jaguares e de máscaras dos deuses Chaac e Tláloc (a divindade azteca correspondente). Para um deslumbramento mais completo, teremos que esperar até ao dia seguinte, até chegarmos diante do Palácio das Máscaras de Kabah, dezoito quilómetros a sul de Uxmal, cuja fachada foi decorada com trezentas máscaras em pedra do deus Chaac.

Rumo aos areais do Caribe

Depois de uma semana dividida entre o centro histórico de Mérida e as estradas de floresta que levam às cidadelas maias de Uxmal e dos seus arredores, meto-me num coloridíssimo autocarro de ar bem mexicano. Rumo a Izamal, para visitar o Convento de Santo António de Pádua (ou de Lisboa, “como usted quiera”, dir-me-ia uma esclarecida devota), embarco numa nave (des)animada pelos queixumes amorosos de um mui lamentoso grupo de mariachis. “Me cansé de rogarle, me cansé de decirle que yo sin ella de pena muero…” e mais um punhado de lamúrias semelhantes iam acompanhando a travessia de pequenos povoados, Tahmek, Kantunil, Sudzal. Seguia meio narcotizado por um rosário de luzinhas vermelhas que piscavam intermitentemente à volta de uma imagem da Vírgen de Guadalupe pendurada no para-brisas. Hipnotizado ou dormente, podia imaginar um lento besouro polícromo arrastando-se penosamente ao sol, a furar o ar abafado e húmido algures num oceano verde de floresta subtropical.

No dia seguinte, a bordo de mais um autocarro popular, vivo um filme semelhante até chegar a Valladolid, uma bonita cidade de urbanismo e arquitetura colonial em bom estado de conservação, tão colorida como uma arara. A povoação é um bom exemplo de como o turismo vai transformando lentamente a economia e as sociedades dos mais remotos pueblos mexicanos.

A jornada de Valladolid a Chichén Itza toma menos de uma hora. Chichén Itza é, juntamente com Uxmal, uma das mais visitadas estações arqueológicas do Yucatán e um notável testemunho dos conhecimentos de astronomia detidos pelos sábios maias – o Observatório e a Pirâmide de Kukulcán (ou da serpente emplumada) são os principais exemplos num conjunto de vestígios que abarca uma ampla área.

Cada um dos nove níveis da pirâmide está dividido em dois terraços, que representam os dezoito meses do calendário maia. Cada uma das escadarias de acesso ao templo tem noventa e um degraus, um total de 365, tantos quanto os dias do ano. É uma tentação subir o escadório a pique; outra pequena aventura a que o visitante se pode dedicar, se não padecer de claustrofobia, é meter-se pela galeria que se abre num dos flancos e descer até uma câmara interior. O piso é escorregadio, o ar abafadiço, quase irrespirável. Mas o “sacrifício” tem recompensa: a escultura de um jaguar pintado de vermelho e com perscrutantes olhos de jade, imagem com qualidades para persistir na memória.

Mais adiante, o litoral do mar do Caribe é ainda uma antologia de areais em cenários de postal, se bem que a Quinta Avenida, a zona dos bares de Playa del Carmen, aspire agora a ser mais do que poiso de backpackers, como era há alguns anos atrás. Toda a região litoral é uma sucessão de praias e recifes de coral, a convidar a preguiceiras e mergulhos. Para a prática do ecoturismo, há a Ría de Celestum (excelente local para observação de aves) e o Parque Natural de Río Lagartos, no norte; lá para o sul, a reserva de Sian Ka’na, perto da fronteira com o Belize, e a de Kalakmul, junto à Guatemala, ambas catalogadas como Reserva da Biosfera.

Para culminar o roteiro maia (sem esquecer a menos explorada e mais “remota” Cobá, umas dezenas de quilómetros para o interior), temos, ainda, a estação arqueológica de Tulum, cidade marcada já pela influência tolteca e pelo declínio. Escapou-lhe o brilho arquitectónico das suas congéneres de Uxmal e de Chichén Itza, mas conquistou uma localização de luxo, à beira das águas cristalinas do Caribe.

Humberto Lopes

Viagens Inatel

México – Segredos Mayas

Data: 5 a 12 de setembro

Informações: Tel. 211155779

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