Destaque

Uma oportunidade de futuro

A Fundação Inatel e o Conselho Português para os Refugiados assinaram um protocolo de colaboração no passado dia 27 de maio. Através do programa “Migrantes como Nós”, uma resposta solidária da Inatel com o objetivo de integrar dez refugiados na sociedade portuguesa, é dada a possibilidade a estas pessoas, oriundas do Norte de África e Médio Oriente, de reconstruirem um projeto de vida.

 

Segurança. Esta é a palavra que o iraquiano Hayder Al Rubeye, de 44 anos, mais repete quando lhe perguntamos sobre o que mais gosta em Portugal. Este homem fugiu do Iraque para o Irão, seguiu o caminho para a Turquia até à Grécia numa minúscula embarcação que carregava 47 pessoas. “Foi muito perigoso… O barco era muito pequeno…Tive medo de morrer…”, conta uma pequena parte dos tormentos por que passou até chegar ao lugar que agora é o da boa esperança. “Em Portugal temos segurança e dignidade”, diz com alívio.

Hayder está na unidade hoteleira de Oeiras, com mais nove pessoas, desde março, ao abrigo do programa “Migrantes como nós”. Oito homens e duas mulheres vieram da Eritreia, Iraque e Iémen com idades compreendidas entre os 18 e 57 anos. Este programa tem uma duração de 18 meses. Promover a inserção e autonomização destas pessoas no nosso país, em três fases – acolhimento, formação e emprego – é a resposta da Inatel aos apelos das Nações Unidas, organizações europeias e do governo.

O iraquiano, que era professor de Educação Física, está agora a ajudar na cozinha do hotel de Oeiras. Acalenta o desejo de trazer a mulher e os quatro filhos. Acredita que vai ficar por cá “para sempre”. Pelo menos, esta é sua vontade. Já recebeu, tal como os seus companheiros, conceitos de cidadania portuguesa e visitou alguns pontos do país com a Inatel para conhecer as vivências e formas de estar em Portugal. Gostou de conhecer, em especial, Albufeira e Faro, porque “a vida lá é boa e tem mar, mas o Norte também é muito bonito”. Entretanto, está a aprender Português. Com um sorriso aberto partilha algumas das palavras que já sabe pronunciar na língua de Camões: “Bom dia, boa tarde, pequeno, grande, espera, desculpe, bonita, agora, está tudo bem?” Sorrio e digo-lhe: obrigada pelo testemunho. Hayder responde, em bom Português: “De nada.”

Estes momentos de conversa com Hayder decorreram junto de uma exposição fotográfica na sede da Inatel sobre o “Acolhimento de Refugiados ao longo da história FNAT/INATEL”, inaugurada na tarde da assinatura do protocolo com o CPR. As fotografias testemunham o acolhimento de timorenses em 1946 e crianças austríacas, um ano mais tarde, após a II Guerra Mundial, que encontraram “um lugar ao Sol” na Costa de Caparica.

A abrir esta mostra leem-se palavras interpeladoras do Papa Francisco: “Estão aí, na fronteira, porque há muitas portas e corações fechados. Os refugiados atuais sofrem a céu aberto, não podem entrar, não se sentem acolhidos. O que eu gosto é de ver as nações, os seus governantes, abrindo o coração e as portas.”

Dar mais do que acolhimento

Portugal é o segundo país da União Europeia, a seguir à França, em número de refugiados recolocados. A informação foi veiculada pelo ministro-adjunto, Eduardo Cabrita, durante a cerimónia da assinatura do protocolo. Desde dezembro que chegaram cá 300 pessoas recolocadas. No mês de junho devem vir mais 200, segundo o governante. Na sede da Inatel, Eduardo Cabrita sublinha que “temos disponibilidade para ir mais além” no processo de recolocação e lança o apelo para que “aos refugiados não se dê só acolhimento mas também projetos de vida”.

Estas pessoas que têm chegado a Portugal estão distribuídas por 48 municípios. O ministro-adjunto frisa que estruturas ligadas ao CPR, à Cruz Vermelha Portuguesa, Misericórdias, instituições de solidariedade social formam um movimento com características diversas para responder à chamada para esta causa. “Não há muitos países que possam chegar a uma reunião europeia e possam dizer que não há única voz no Parlamento contra esta forma de acolher os refugiados.” Dirigindo-se depois às pessoas que a Fundação Inatel recebeu em Oeiras, presentes no momento protocolar, Eduardo Cabrita disse: “Quero que se sintam bem em Portugal. É por isso que temos de trabalhar na aprendizagem da Língua Portuguesa, na integração, na criação de condições de emprego.” E terminou a sua intervenção dizendo que há um “dever de solidariedade” da Europa.

O presidente da fundação, Francisco Madelino, afirmou que na génese da Inatel há “uma forte preocupação social e uma capacidade de solidariedade de responder aos momentos que a História exigiu, foi assim na II Guerra Mundial para receber comunidades austríacas, foi assim no 25 de Abril em que esta foi a principal instituição a receber aqueles que ficaram conhecidos como retornados”.

“Estamos mais uma vez – acrescenta – a responder ao desafio que foi iniciado pelo CPR. Nós tínhamos de estar à altura. Estamos aqui num projeto experimental, nesta parceria com três entidades: Conselho Português para os Refugiados, Instituto de Emprego e Formação Profissional e a Fundação Inatel.”

O responsável salienta, ainda, a necessidade de se ajudar os refugiados acolhidos a sentirem-se “como se estivessem na sua pátria”, fazendo “o trabalho que é necessário para os inserir dentro do mercado de trabalho e na sociedade portuguesa”.

Boas práticas

Por sua vez, Teresa Tito de Morais, presidente do CPR, refere-se se ao protocolo, celebrado com a Inatel, como sendo “inédito”. “Este acordo que fizemos é uma boa prática, porque congrega duas etapas: o acolhimento e a preparação, através do conhecimento da Língua Portuguesa, para serem um motor de desenvolvimento do nosso país. Que estes dez primeiros casos que aqui recebemos e que estamos a festejar, no âmbito deste protocolo, possam multiplicar-se, para que esta boa prática seja disseminada.”

Aquela responsável manifestou a vontade de querer ver o nosso país com um comportamento exemplar no acolhimento e inserção destes homens e destas mulheres: “Que Portugal possa ser visto na Europa como um bom exemplo. Um exemplo que responda a uma chamada para apoiar os refugiados que têm de fugir por razões de perseguição política, étnica, religiosa. Países que enfrentam uma instabilidade extrema, conflitos de guerra e graves violações de direitos humanos. Estas pessoas têm necessidade de uma solidariedade que infelizmente escasseia na Europa. Portugal quis mostrar que estava presente.” 

A presidente do CPR lança o repto para que o caminho do acolhimento ofereça estabilidade a quem viu os projetos de vida destruídos nos seus países. “Essas oportunidades de futuro passam não só por mostrar a nossa cultura, mas também pela convivência harmoniosa entre todos. Os portugueses podem mostrar agora o que têm de melhor. Também eles foram forçados a procurar melhores condições de vida. A nossa diáspora tem essa experiência. Os que cá estão podem facilitar a integração destas pessoas que têm o objetivo de reconstruir as suas vidas e contribuir para a sociedade que os acolheu.”

Um “chão de segurança”

Em representação do grupo de refugiados, um deles leu um texto em português, dizendo: “Em Portugal procuramos segurança, paz, estabilidade e um futuro melhor. Queremos aprender a Língua Portuguesa, conseguir trabalho e o nosso sonho é trazermos as nossas famílias.”

Catarina Furtado, embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), deixou uma mensagem, em vídeo, recordando que há pessoas que nascem e vivem sem conhecer o significado de paz. “Há hoje no Mediterrâneo e outras zonas do mundo um excesso de pessoas que morrem, ficam estropiadas, perdem famílias e chão porque falhámos no papel de guardiões de um mundo melhor. O estar livre de todas as formas de violência e discriminação, o acesso à educação, à saúde, à segurança e proteção social, ao trabalho digno são direitos e oportunidades que queremos ver assegurados a par de todos os compromissos assinados, a par de todas as boas vontades. Precisamos de prevenir e pôr fim a conflitos, mas hoje precisamos que as pessoas migrantes e refugiadas que encontram em Portugal um chão de segurança sejam também atores de paz e desenvolvimento.”

Em declarações ao jornal TL, a apresentadora de televisão partilha a sua “aflição”, sempre que conversa com alguém “com as garras de fora” contra os refugiados: “Ter medo do desconhecido é ter medo de nós próprios, é não saber como lidar com os outros. Ninguém pode saber qual é o seu papel se não estiver informado. Há que fazer o exercício absolutamente determinante, ainda que seja difícil, de nos colocarmos no lugar do outro. Que foi outrora o nosso papel. A vida mostra-nos isto constantemente. A partir daqui, acredito que é possível encontrarmos o nosso caminho, dar a mão e olhar de uma forma construtiva para o refugiado.”

Informar para intervir

A informação é o princípio para se compreender a dimensão humana do que está a acontecer. A família e a escola podem contribuir para que as crianças também saibam o que se está a passar no mundo – com a cabeça e o coração disponíveis para sentir empatia por meninos e meninas que estão a viver situações muito difíceis, noutras latitudes.

Durante a cerimónia, uma aluna da Escola Básica Conde Ferreira, de Oeiras, leu um poema que escreveu: “Ser refugiado é trabalhar num país novo/fazendo parte de um diferente povo./Ser refugiado é ser bem recebido,/acarinhado e protegido./Sejam bem-vindos!” Filipa Galveias, do segundo ano, conta ao TL: “Antes não sabia o que eram os refugiados, mas depois comecei a perceber que fugiam dos seus países por alguma coisa.” Do alto dos seus oito anos, diz ainda com convicção que “Portugal deve receber estas pessoas”. A professora, Maria Alice Nogueira, explica que trabalhou este tema com os seus alunos e sublinha que a Filipa interiorizou “muito bem” a informação sobre os refugiados.

O evento teve, ainda, apontamentos musicais com alaúde árabe tocado por Eduardo Ramos. O músico e compositor, que tem estudado nos últimos 18 anos os nossos antepassados árabes, cantou uma poesia do rei-poeta do Iémen. “Ó lua eu vi-te no crescente e no esplendor, e toda a minha mágoa me deixou”. Palavras que o remetem para a beleza das pessoas: “Não interessa se nasceram cá ou se vieram de lá. Estes refugiados que vêm para aqui têm as suas histórias e beleza para nos transmitir. Portugal fica mais esplendoroso e rico com estas pessoas que nos trazem outras culturas.”

Sílvia Júlio

Uma portuguesa em Lesbos, Grécia

Sara Almeida, 24 anos, ficou “chocada”, com o afogamento do menino sírio de três anos, Aylan, encontrado na costa turca, em agosto passado. A jovem viu, ouviu e leu as notícias, não podia ignorar. Sem compromissos profissionais, e algumas poupanças, sentiu “uma grande vontade de ajudar”. Ela e o namorado contactaram várias organizações para serem voluntários. Nos Médicos do Mundo da Grécia integraram a equipa na ilha de Lesbos. Partiram em setembro do ano passado e ali ficaram durante cinco semanas. Foram dias “intensos e traumatizantes” porque as condições no campo de Moria eram “desumanas, não havia comida, sítio para dormir, e a polícia tratava mal as pessoas”.

Meses depois, a MdM Grécia contratou Sara e o seu namorado para a equipa de coordenação do que é doado à organização. Atendem cerca de 300 pessoas por dia, dando produtos de higiene pessoal, roupa interior, leite para bebés e fraldas.

Sobre o dia a dia dos refugiados em Moria, o relato é eloquente: “Em abril deste ano, quando ali chegámos, encontrámos o campo pior do que em 2015. Moria passou a ser um centro de detenção. Já ninguém fala da vida fantástica que vai ter na Europa. Perdeu-se a esperança. As pessoas passam os dias sem nada para fazer, as crianças não têm uma escola, nem onde brincar. Os adultos não têm um motivo para acordar de manhã a não ser o momento do dia em que a polícia chama alguns nomes ao microfone. Pode significar que algo aconteceu com o seu processo de asilo e tem de comparecer perante as autoridades. Algumas estão há mais de dois meses sem saber quando o pedido de asilo será aceite, para poderem finalmente ter uma vida normal.”

As histórias tristes que tem acompanhado são muitas. Muitos episódios deixaram-na com um nó na garganta: “Levanto uma caixa de cartão e encontro uma criança nua, a tremer de frio. Abraço-a com uma toalha enquanto choro e ganho coragem para procurar roupas que lhe sirvam. Visto-a com uma gabardine e tento sorrir. Ela sorri de volta. Os seus pais estavam numa fila interminável à espera de um papel de registo para encontrar asilo num país seguro e que os respeite.”

É por esta e por muitas outras situações que Sara Almeida salienta a importância da integração dos refugiados em Portugal: “Quem chega precisa de bons amigos, que lhes ensinem a língua, que os levem a passear, que lhes mostrem o país, que os façam rir, que os ajudem com burocracias chatas, que os façam acreditar na possibilidade de recomeçar num sítio desconhecido. E, sobretudo, que há histórias felizes.”

S.J.

 

Hotel solidário

A Fundação Inatel está a tentar motivar outras empresas do ramo hoteleiro para que se juntem ao programa “Migrantes como nós”. As que se associarem vão receber a placa “Hotel Solidário”.

A Inatel vai utilizar os seus contactos comerciais junto de outras unidades hoteleiras, que têm colaborado na operacionalização e execução de outros programas socais, para os sensibilizar para a problemática dos refugiados e participarem nos mesmos termos da fundação.

A angariação de parceiros tem o objetivo de contribuir para a empregabilidade de cidadãos refugiados a longo prazo, possibilitando a contratação das pessoas que obtiveram formação e experiência nas unidades hoteleiras da Inatel.

“Estamos a encetar contactos com a Confederação do Turismo Português (CTP) e a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) para lançar o ‘Hotel Solidário’, para que em rede ajudemos a incluir os refugiados e a participar com esta função de responsabilidade social na integração destas pessoas. Portugal é um país humanista e, mais uma vez, vai estar à altura”, concluiu Francisco Madelino.