Entrevista

"No desporto temos um sentido de vida"

O autor do livro Futebol INATEL 75 Anos, cujo lançamento está previsto para 26 de junho, ajuda-nos a relacionar a história da modalidade nesta instituição com a História do país. O antigo internacional de andebol desvenda-nos, ainda, a atração pela bola que é comum ao ser humano. E a vontade de jogar com os outros.

 

Talvez uma história de infância deste jornalista desportivo, de 61 anos, contribua para melhor se entender como começa o gosto pelo esférico: “Os meus pais têm uma fotografia comigo com uma bola na mão e parece que a quero comer, tal era a minha alegria.”

Uma bola pode alimentar a necessidade de conviver alegremente com outras pessoas. No passado já se falava numa premissa que hoje marca pontos no campeonato da vida: trabalhadores que vivem momentos de lazer são mais felizes. Logo, são mais produtivos.

Qual o dado mais curioso que ressalta desta pesquisa sobre o futebol Inatel?

A certa altura virei-me para aquilo que tinham sido as empresas e a forma como estas tratavam bem os trabalhadores, com tudo o que hoje um sindicato ou revolucionário possa pensar, porque, na verdade, era uma faca de dois gumes. O que aconteceu foi que num tempo em que havia pouca qualidade habitacional, começavam a aparecer não só as grandes herdades como as grandes fábricas de produção em que o trabalhador era uma peça importante. Foram construídas casas, refeitórios, assistência médica… Não havia nada em Portugal. Havia gente com visão, como os homens dos Armazéns Grandella, da Fábrica de Loiça de Sacavém, Herdade de Rio Frio e outras. Dentro das empresas havia casas para os trabalhadores, escolas, posto de primeiros socorros, transportes, campo de futebol, zona de lazer, pequeno teatro... Como disse no livro, na base de tudo isto está o jogo. Até um animal gosta de jogar com uma bola. O jogo atrai-nos. Vivemos no jogo uma superação que muitas vezes não conseguimos no dia a dia.

Jogo pensado no coletivo?

Jogar sozinhos não tem piada, e é assim que nasce o desporto entre as fábricas e os trabalhadores. Vamos jogar com a fábrica ao lado. Depois é preciso alguém para organizar isto. A FNAT percebeu que tinha ali um caminho. As modalidades começaram a aparecer. Portanto, foi um bem para todos os trabalhadores aparecer a FNAT para os organizar. O primeiro campeonato foi só uma coisa local e, a partir daí, começa a evolução. Atenção: primeiro houve melhores condições em fábricas do que nos próprios clubes. A Fábrica de Loiça de Sacavém desde cedo teve um campo de futebol, porque veio um dirigente inglês. Nessa época foram construídas instalações desportivas dentro de muitas fábricas. Um operário tem de ter o seu espaço, tem de descansar.

Esses dados ajudaram-no a mudar a perspetiva sobre a história?

Sou sincero, mudou-me um pouco a perspetiva da história relativamente àquilo que nunca tinha explorado que era este fenómeno dos trabalhadores e o seu desporto. Lembrava-me quando o Livramento, de quem fui amigo, jogou no Banco Pinto & Sotto Mayor. Pensava como é que o melhor jogador do mundo participava no Sotto Mayor, onde trabalhava, entre ter estado no Benfica e no Sporting. É porque tinha condições e era acarinhado. Ouvíamos falar da equipa da Regina (chocolates), dos telefones, da carris, das cervejas e o entusiasmo que havia à volta disso. Porém, não tinha ideia nem do número de praticantes, nem do número de polos que criou em todo o país. Foi um crescimento enorme, bem acompanhado, e com um vínculo muito claro da FNAT, depois do INATEL. Não tenho dúvida de que a criação do Estádio dos Trabalhadores foi um polo importantíssimo para este desenvolvimento. Havia muitas dificuldades em ter campos. Tentei também valorizar o que tinham sido equipas grandes da história do futebol da FNAT/INATEL. Contam-se ali histórias da H. Vaultier, da Fundição de Oeiras, Fábrica de Esmaltagem do Porto de Mário Navega, das conservas, do barro e da cerâmica, como é o caso da fábrica que existia onde é a sede da Caixa Geral de Depósitos... Hoje as equipas dos tempos modernos já não têm nada a ver com isto.

O registo da riqueza desta história do futebol, nesta instituição, ajuda-nos a compreender a paixão pela modalidade em Portugal?

Ajuda-nos a perceber que o futebol é muito mais que os milhões do Renato Sanches ou de um miúdo que muda a sua vida em pouco tempo. Abre para a pessoa que está na linha lateral. O adepto é um praticante em potência. Com uma bola podemos dar três toques e dizer ao outro: “Vê lá se consegues fazer como eu.” Não tenho dúvidas de que estas pessoas acabaram por jogar como uma forma de lazer. O lazer é importante para o crescimento correto. Eu comecei a fazer desporto com quatro anos de idade no Ginásio Clube. No desporto temos um sentido de vida.  

Que sentido é esse?

Hoje faço futebol na televisão e no final das minhas transmissões digo: “Veja desporto mas faça também exercício físico.” Quando eu tinha um dia difícil, no meu treino de andebol, atirava quatro remates ao poste para tirar os nervos de cima. Estas coisas libertam-nos. Não é só a questão física – é também psicológica. Conseguimos ser outras pessoas através do jogo e do convívio. Depois, ver e aplaudir quem faz melhor é um plus.

O que o atraiu nesta história?

Quando me foi apresentado o José Augusto Martinho dos Santos, presidente do Bairro S. João Atlético Clube, gostei muito do seu entusiasmo. Ele tinha um grande acervo. Resultados distritais, regionais, aparecimento de equipas, fotografias antigas... Foi o meu grande parceiro. A certa altura comecei a pensar: “Isto vai muito para lá daquilo que é o mero esforço e representação dentro do campo.” Percebi que havia aqui coisas interessantes, sob o ponto de vista sociológico. Ouvimos falar daquelas equipas, mas como é aquilo se organizava? A FNAT foi o primeiro grande momento de lazer para os trabalhadores – e o desporto foi das últimas coisas. Deu a possibilidade aos ranchos folclóricos, aos passeios, ao turismo para os trabalhadores... O desporto aparece na FNAT para “cuidar do corpo e melhorar a raça lusitana”. Fundamentalmente era a ginástica e a atenção em relação à alimentação e higiene. Quando começo a pensar no livro digo: “Há aqui coisas importantes para perceber.”

Na inauguração do Estádio da FNAT, em 28 de junho de 1959, Salazar apareceu “inesperadamente”, como escreveu. Que significado teve?

Salazar não gostava de futebol e era avesso ao desporto. Curiosamente, não é por acaso que aparece. Ele foi para marcar a importância que a FNAT tinha relativamente ao trabalho e à organização laboral, na linha dessa disciplina que se pretendia para “as coisas estarem calmas e organizadas”.

Depois do 25 de Abril, o Estádio dos Trabalhadores é denominado Estádio 1.º de Maio…

Fui à primeira comemoração do 1.º de maio em 1974. Tinha 19 anos. A certa altura era difícil termos campeonatos porque passou a ser um estádio de comícios. Eu até lá fui ao do MRPP e nunca fui do MRPP. Nós íamos tentar ouvir toda a gente. Era um tempo louco. Mas foi tão bonito. Que nos deu a liberdade e a democracia.

Ali realizou-se uma fase do Mundial de Andebol, com a nossa seleção, em 1986. O que recorda desse acontecimento?

Nessa altura já tinha 31 anos. Trabalhava na Holanda em televisão e vim de propósito para jogar esse campeonato do mundo, no Estádio 1.º de Maio, em Alvalade, que era o meu bairro. Isto é que era mesmo jogar em casa [risos].

Que importância tem hoje a Inatel?

A Inatel continua a promover o convívio, para termos uma sociedade melhor. Precisamos de entidades como esta que permitam não sermos apenas as pessoas amachucadas pela crise, pelas dificuldades no trabalho, pela educação... Através do desporto conseguimos ser melhores pessoas e ter uma vida melhor.

Sílvia Júlio