Ficções

Romance

É hoje. É hoje pelas seis da tarde e Braulio Severino agitou-se num redemoinho de emoções. Alegria e medo. Feliz e angustiado pelo passo que vai dar. Hesita nos preparos: Bleizer ou blusão? Talvez o pullover azul claro que a irmã lhe deu no Natal. E jeans. Ou calças de tecido mais convencional? É preferível. E sapatos pretos, acaba de os engraxar. Qual será a reação dela no momento do encontro? Provavelmente, de decepção. Nem se sente à altura daquela mulher que o encontrou com os seus poemas e, há que reconhecer, também pelas perfeições físicas.

Tudo começou e foi crescendo no facebook. Braulio Severino saudou com “gosto” um poema intitulado “Meu amor, teu amor”. E foi tomando como dirigido a ele o amor poético dela. Outro poema, outro “gosto”, seguido de seis linhas de elogio, a confirmar que “gostava” e, atrevendo-se, a passar dos versos para o sorriso da autora. Não só o sorriso, na verdade, a sequência de fotos de Marcela T. – assim assinava a mulher poeta – era elucidativa quanto aos encontros de corpo inteiro, das pernas à cabeleira abundante e loura – e ao rosto de traços harmoniosos. Pela primeira vez na sua calma existência, Braulio Severino sentiu os calores da paixão, primeiro pela poesia de Marcela T., acrescentada pela excelência física. Seguiram-se mensagens, cada vez mais afectuosas, a que ela correspondia com uma ternura fascinante.

O problema estava em que Braulio usava na sua página fotos de um primo, jovem ginasta com cara de sedutor cinematográfico. Nunca afirmara que tais fotos seriam de si próprio, Braulio Severino, mas seria natural que a correspondente fosse levada a pensar que, além de lhe apreciar os versos, o novo amigo tinha aquela figura.

Não tem. Agora esforça-se por se apresentar sem a desiludir excessivamente, sendo certo que para corresponder às fotos do primo precisaria de mais quinze centímetros e menos vinte quilos, além de existir um rosto estilo escultura grega. Daí o medo com que irá apresentar-se no encontro marcado para se conhecerem pessoalmente. Mas lá estará, às seis da tarde, junto ao lago do Rossio, esperançado que ela dê mais valor à sensibilidade que o admirador demonstrou nos textos do facebook. Não duvida que a uma mulher como Marcela T. não faltarão pretendentes, porventura mais seduzidos pelo fisíco do que pelo talento, enquanto, no seu caso, a paixão crescera pelo lado espiritual. Queria imaginar que também as palavras quentes de Marcela T. eram homenagem à sua inteligência e não às fotos do primo.

Encontro marcado para as seis da tarde, às cinco já Braulio Severino se passeava pelo Rossio observando bandos de turistas, alguns incluindo mulheres altamente perturbadoras mas nenhuma, disse de si para si, capaz de o perturbar tanto como Marcela T. Dez minutos antes das seis acercou-se do lago. Aí viu gente diversa, como turistas entretidos com selfies, um cavalheiro de bigode farfalhudo notoriamente à espera de alguém, tal como uma senhora gorduchinha e de meia idade, e outra, magra, com boné de pala longa, ainda um par jovem namorando-se com as bocas e as mãos, uma mulatinha graciosa rebolando as ancas enquanto falava ao telemóvel.

Marcela T. não deve demorar. Mesmo assim, Braulio senta-se no murete do lago e vai olhando em volta. Reconhecê-la-á mal se aproxime. Às seis em ponto não se impacienta, sabe que as mulheres gostam de se fazer esperar, tanto mais tratando-se de um primeiro encontro com alguém só conhecido através do facebook. Mas levanta-se e começa a andar aos círculos em torno do lago. Aos poucos, o espaço vai-se esvaziando, já só restam ele próprio e a gorduchinha de meia idade que faz correr o olhar por todas as direcções. Ocupados no volteio quase esbarram e Braulio, sempre delicado, diz:

– Desculpe. Espero uma pessoa que tarda e olhava para longe.
Ela sorriu:
– É o meu caso.
– Esperar é sempre difícil quando nos falta um número de telemóvel – gracejou Braulio – É o meu caso – repetiu a senhora.
Divertido com a coincidência, Braulio Severino entendeu que se justificavam apresentações. Perfilado avançou com a mão espalmada:
– O meu nome é Braulio Severino.
Ela segurou a mão que se lhe estendia mas, de imediato, cravou no interlocutor um olhar espantado:
– O Braulio? Mas não se parece nada?
– Não me pareço... com quem?
– Com as fotos no facebook!
– Pois, as fotos são de um primo. Mas tem visto a minha página?
– Naturalmente. O Braulio Severino é um amigo especial.
– Eu? Especial para quem?
– Para mim, Marcela T.
– A Senhora é a Marcela T.?
– Precisamente.
– Desculpe, parece diferente nas fotos do facebook.
Ela larga uma gargalhada:
– As minhas fotos no facebook são de várias pessoas e nenhuma pretende representar-me. E agora? Incomoda-o não ser como julgou que era?
– Nada. E a si? Desiludo-a por não ser o meu primo?
– Nada.
– Óptimo. São quase horas de jantar. Vamos?
Saem risonhos e de mãos dadas quando cai a noite.

Mário Zambujal