Memórias

Leonor Teles

Fascínio no bazar de Esmirna

A jovem realizadora da curta-metragem Balada de um Batráquio, galardoada recentemente com o Prémio Firebird em Hong Kong e um Urso de Ouro em Berlim, recebeu a primeira distinção no 7.º concurso de vídeo da Fundação Inatel com o documentário Rhoma Acans, em 2012. Início de ‘viagem’ profissional: “Foi muito importante por ser o reconhecimento do meu primeiro filme, ainda um trabalho de escola. Incentivou-me para o futuro.” Outras viagens constam no seu currículo. Dentro e fora do cinema.

 

Leonor Teles, aos 23 anos, desvenda a viagem de lazer mais cinematográfica que viveu até hoje. Começa a rodagem em Esmirna (Izmir, em turco). Três, dois, um… Ação!

O sol brilha lá no alto. Sente-se uma atmosfera vibrante no bazar. Cheiros de especiarias invadem o olfato. Cores, muitas tonalidades despertam outros sentidos. Sonoridades a baralhar a audição. Campainhas de bicicletas, diálogos numa língua desconhecida, pregões de quem vende peixe, queijo, especiarias, tudo e mais alguma coisa.

De repente, ouve-se o adhan ou azan. Dos altifalantes, por toda a cidade, ecoa o chamamento para um dos cinco momentos das preces diárias. Parece-lhe um cântico ancestral. As pessoas começam a “desaparecer”. “É fascinante e tenebroso ao mesmo tempo. Há uma certa tensão no ar. O som toca muito à emoção. Há ali qualquer coisa que está para além da lógica”, conta a protagonista desta viagem. É a primeira vez que Leonor Teles põe o pé num país muçulmano.

A Turquia está entre dois continentes, Europa e Ásia. Se há ali coisas que reconhece como europeias, outras tantas parecem-lhe diferentes de tudo o que já tinha visto. “O bazar é tão cheio de vida… Há uma data de mesquitas no nível superior, onde se entra de maneira quase escondida. Parece um sítio suspenso no tempo.”

A viagem decorreu há um ano. De todos os locais por onde tem passado, foi este o que mais gostou de fotografar. Gastou dois rolos de 36 fotografias. Prefere máquinas analógicas. Não gosta de apagar os registos como acontece nas digitais. Escolhe cuidadosamente o melhor enquadramento e espera pelo resultado, um “mistério” desvendado só depois da revelação: “As fotos que tirei na Turquia estavam mesmo fixes”, partilha a jovem.

“Só estive lá um dia e adorei do princípio ao fim.” Regressou ao cruzeiro que a levava para outras paragens. Esta viagem que fez com a mãe e o irmão mais novo incluía ainda visitas a Itália, Malta e Grécia. Todos os destinos por onde circulou eram “fabulosos”. Mas nenhum outro lugar foi tão “marcante” como Esmirna. Quando a deixou para trás, disse à família: “Eu quero cá voltar.” Ainda não sabe quando voltará a pisar solo turco. Mas não deverá demorar muito. Depois de ter estado ali, sentiu o que nunca antes tinha vivido ao chegar a Portugal: “A frustração de não poder continuar a viajar por mais tempo, para conhecer outras pessoas e outros lugares.” No regresso teve uma sensação de que não viveu tanto noutras partidas. Quando foi ao Festival de Cinema de Berlim, por exemplo, teve vontade de tornar a casa.

Quem regressa já não é igual a quem partiu. Descobrir novos mundos, sítios e gentes ajuda a ler melhor o mapa que está dentro da ‘mala’ de cada viajante: “Viajar permite deixar algo para trás e abrir caminho para conhecer coisas novas. A bagagem que trazemos faz-nos mudar a perspetiva quando voltamos.”

No filme da vida há sempre a possibilidade de muitas viagens, muitas inspirações para histórias com final aberto...

Sílvia Júlio