Autores

Jacinto Lucas Pires

"Nem sempre o país vem ao teatro..."

Palcos, corpos e gestos. Palavras vibrantes. Pausas e silêncios. Originalidade recriada na cena. Autores, encenadores, atores, público. Ligações quase perfeitas. Arte e vida. Inquietação. Ousadia. Ficção. Memória. Reflexão. Crítica. Criação. Teatro. Um mundo cheio de mundo. Entre 1998 e 2010 escreveu cerca de vinte peças de teatro. Muitos mais espetáculos foram criados a partir da sua obra, por diferentes encenadores. No espaço de um ano, de 2010 a 2011, quatro textos foram levados à cena: Exactamente Antunes, no Teatro Nacional S. João. Peça Felicidade, no Teatro da Trindade. Sagrada Família, na Culturgest. Tu és o Deus que me vê, no Estúdio Zero.
Além de dramaturgo é autor de contos e romances. Entre os recentes títulos destaca-se O verdadeiro ator, romance premiado em 2013. Incluídas nas múltiplas atividades, também escreveu e realizou curtas-metragens. Vamos saber o que partilha connosco, em poucos minutos, porque o tempo de agora sugere um tempo sem tempo. 

Quais são os mais belos jardins do filme da sua vida?

O jardim do Príncipe Real em Lisboa; uma evocação de natureza em Union Square, Nova Iorque; um jardim de pedra em Quioto; dois jardins secretos na zona de Ponte de Lima.

Que raiz da palavra arrancaria como uma erva daninha?  

Não vejo nenhuma palavra como erva daninha. As vozes do politicamente correto é que, por vezes, parecem esforçar-se por retirar das palavras todo o sangue, toda a morte, todo o desejo, toda a dúvida, e isso estraga-as momentaneamente.

O palco do Trindade volta a receber um dos seus textos, Escrever, falar, em cena até 15 de maio. Neste espetáculo que “lugares da palavra” se podem encontrar?

Em Escrever, falar é como se a palavra se fizesse lugar. E, estranhamente, isso não faz desaparecer o corpo das personagens. Pelo contrário, torna-o mais presente, sem disfarces e sem defesas. Por outro lado, há um outro nível de lugares imaginados ou lembrados por aquelas vozes. E, a certa altura, é quase como se a palavra fosse um lugar físico e o corpo fosse uma projeção para o passado ou para o futuro.

Num tempo em que há abundância de informação e carência de espanto, porque não podemos esquecer-nos de cultivar “o sonho e a utopia”?

Porque, sem sonho e sem utopia, não temos um caminho para onde ir, uma direção – um sentido.

No texto de apresentação da peça Tu és o Deus que me vê, disse: “Como é que uma palavra pode interferir no mundo, ferir o coração do mundo, mudar o mudar do mundo?”. O que falta além da palavra?

As palavras, quando exatas e claras, são gestos no mundo. O que falta é sermos capazes de silêncio, de escuta e de pensamento. O que falta é não ficarmos reféns do ruído e da velocidade do tempo de agora.

O espetáculo Exactamente Antunes, a partir de Nome de Guerra (1925), de Almada Negreiros, estreou no Porto, em 2011. A propósito de Almada e do Modernismo, declarou: “Ensinam-nos (...) que as palavras detêm um valor em si mesmas e que temos de regressar ao poder escandaloso da palavra...”. Imagine que está num palco despojado. Situado no lado esquerdo da cena [em francês, designado por jardin]. Na posição oposta está uma personagem, que representa a sociedade portuguesa, com quem terá um diálogo...

Quando se escreve teatro é um pouco isso que se passa. Um diálogo com a cidade, com a comunidade. O problema é que nem sempre o país vem ao teatro para essa conversa, e a televisão não é tão boa a ouvir... 

Fazemos cinema’ todos os dias, sem nos darmos conta, já é quase uma segunda natureza”, afirmou numa entrevista. Suponha que despertou de um sonho, no qual se transforma numa flor, como o jovem Jacinto imortalizado por Apolo [Mitologia grega]. Que espaço agora ocupa?

Teria de ser poeta para responder a um desafio desses. Mas há um poema de Eugénio de Andrade que começa assim: “Tenho o nome de uma flor/ quando me chamas (...).”

Teresa Joel