Reportagem

Estes mundos que se nos põem diante dos olhos

Uma jornada por dois dos territórios que fizeram parte da Indochina francesa, onde inumeráveis maravilhas se acham e por onde notáveis portugueses de antigamente andaram também viajando.
 

Ironias. A colonial Indochina francesa assentava na junção de vizinhos e inimigos de longa data, o Vietname e o Camboja, além do Laos. Unidos e desunidos por uma história atribulada, bem se pode escrever: a vizinhança tanto os aproximou como os separou. Uma inimizade histórica, que parece não se ter ainda esgotado, marcou durante séculos a vida dos dois povos, que possuem, afinal, características religiosas e culturais distintas. E políticas: o Camboja renasceu do pesadelo de Pol Pot restaurando a monarquia, agora de cariz constitucional, enquanto o Vietname permanece como um dos últimos países comunistas do mundo. Nos planos económico e social, outra importante distinção: o Camboja é um dos países menos desenvolvidos (ou, sem eufemismos: mais pobres) da região, a par do Laos e de Myanmar, enquanto o Vietname pertence ao grupo de nações conhecidas, desde há uma vintena de anos, como "novos tigres asiáticos". O viajante, nas suas jornadas por estas terras, tomará facilmente nota dessas distinções, pelos muitos sinais que diante de si se porão a desfilar, ora os da vida quotidiana que toma conta das ruas, ora os do património cultural e arquitetónico que ilustra as identidades de cada um desses países.

Um tigre asiático mostra as garras

A antiga capital do Vietname do Sul esteve no ano passado decorada com faixas e cartazes alusivos à reunificação do Vietname - as principais comemorações, que incluíram um grande desfile militar, aconteceram precisamente em Ho-Chi-Minh. A velha Saigão - nome que teima em não desaparecer do vocabulário - é no Vietname, porventura, a urbe que mais expressivos sinais herdou do período colonial e a que mais se deixou modelar social e culturalmente durante o período da localmente designada "guerra americana". Os atrativos que espontaneamente convencem os viajantes: as largas avenidas e a arquitetura de traço colonial, o vívido (e vivaço) cosmopolitismo de certos ambientes, aquela tão oriental correnteza de motoretas e bicicletas que o verbo ocidental insiste em substantivar simploriamente como “caos”, uma certa dinâmica de ocidentalização, muito mais ostensiva do que noutras paragens vietnamitas e, sobretudo, do que na conservadora Hanói. E ainda, já que ao fim de umas poucas semanas de viagem pelo país tal nos parecerá um muito amado traço identitário, os abundantes signos da guerra, da resistência (e resiliência) e da afirmação política e nacionalista do povo vietnamita (primeiro contra o colonialismo francês e depois contra a ocupação norte-americana), cultivados com refinado afã para alimento interno das narrativas patrióticas e, além do mais, bem reconhecidos na sua utilidade turística. Em museus como o Museu dos Despojos de Guerra em Ho-Chi-Minh, à semelhança de outros em Hanói, Hué ou Khe Sanh, a exibição das carcaças dos bombardeiros e dos tanques norte-americanos, assim como do armamento capturado, simboliza bem as garras desta propagandística diligência.

Podemos ver Ho-Chi-Minh – até certo ponto, evidentemente – como o ensaio, em curso, de uma nova Singapura ou de uma nova Seoul. A cidade é o símbolo do sucesso económico de um dos novos tigres asiáticos e, afinal, das políticas de abertura à economia de mercado promovidas pelo Partido Comunista do Vietname. A economia arrefeceu entretanto, após o boom dos anos 90, mas os símbolos do crescimento rápido ficaram e a cidade é hoje um relicário de sinais de diferentes épocas e regimes: os arranha-céus, as tecnologias de ponta presentes em alguns sectores, uma juventude irrequieta e consumista, as bandeiras com a foice e o martelo em convívio com centros comerciais e estabelecimentos de fast food. E a dois passos desta miscelânea, os botecos com comida de rua onde se pode degustar a saborosa pho, uma sopa vietnamita.

De Ho-Chi-Minh ao país rural

Sobram à velha Saigão tentações para inscrever nas agendas dos viajantes: o Pagode do Imperador de Jade e o seu panteão de divindades budistas e taoistas, entre muitos outros templos igualmente fascinantes, como os de Phuoc An Hoi Quan e de Xa Loi, o Museu de Belas-Artes, instalado num belo edifício colonial, com a sua vastíssima colecção que inclui peças tão antigas quanto as esculturas hindus e budistas do século VII, a neo-românica catedral de Notre-Dame, afamado resquício francês implantado em pleno centro, que tem a vantagem de se mostrar mais luminoso e arejado do que o seu congénere em Hanói, os mercados populares de Ben Thanh, um tanto turístico, é certo, mas com boa oferta de saborosa comida de rua. Tudo isto é uma ínfima parte do retrato de Saigão. O viajante tem que se preparar, ainda, para um interessantíssimo, roteiro de arquitetura colonial, que inclui o esplêndido edifício da câmara municipal.

A pouco mais uma hora de Ho-Chi-Minh espera-nos uma das mais curiosas expressões do encontro entre memória patriótica da guerra e o turismo: os túneis de Cu Chi, um sistema – com mais de cem quilómetros - de galerias subterrâneas usadas durante a guerra. Não é a única atracção fora de portas: chama-nos, para sul, o delta, a vasta planura povoada de gente que vive com um pé na água e outro em terra firme, reino de mercados flutuantes, arrozais, plantações de cana-de-açúcar, palmares, bananais, hortas, pomares e redes de canais por onde desliza um permanente tráfego fluvial. A nota dominante é a de um país rural, de paisagens desenhadas com longas linhas horizontais, um mundo verde e fértil de água e de gente paciente e perseverante.

 

Por aqui passou Fernão Mendes Pinto

A longa viagem até Hanói a bordo do Expresso da Reunificação merece uma pausa por alturas do paralelo 17, que assinalava, mais quilómetro menos quilómetro, a divisão entre as duas metades vietnamitas em guerra e bordejava a chamada zona desmilitarizada. Na região a que os franceses chamaram Annam tem o viajante encontro marcado com a capital cultural do Vietname, Hué, que foi também capital do país e sede da dinastia Nguyen desde o início do século XIX até meados do século XX.

O Rio Perfume, que atravessa a cidade, proporciona cativantes navegações até alguns templos, como o muito popular Thiên Mu, a palácios ribeirinhos e a mausoléus de ilustres imperadores, com belos cenários campestres à mistura, mas é a visita à cidadela imperial, classificada pela UNESCO como Património Mundial, que anima a grande maioria dos forasteiros. A famosa batalha de Hué, travada em 1968 na altura da ofensiva do Tet, entre os exércitos vietcong e norte-americano, deixou quase todo o espaço da cidade imperial em ruínas, mas a reedificação a que cidadela (menos de um quinto da área da cidade imperial) tem sido sujeita veio devolver-lhe um pouco do seu esplendor. O Palácio da Suprema Harmonia, todo em madeira ricamente trabalhada e com a sua magnífica sala do trono, é um dos pontos altos da visita. À volta, os jardins e os pavilhões que se erguem no interior das muralhas são exemplo da melhor arquitetura imperial, não só do antigo Annam como de todo o Vietname, e ainda dão uma ideia do que o imperador Gia Long planeou no século XIX – uma réplica da cidade proibida de Pequim.

Com a moderna Da Nang pelo meio (a cidade foi generosamente bombardeada e destruída durante a guerra do Vietname), descemos até Hoi An, uma pequena mas muito animada povoação cujo centro histórico está também inscrito na lista da UNESCO. Nas ruelas deste antigo porto comercial passeamos entre casario vetusto e de quando em vez damos com casas de ilustre ancestralidade que vale a pena admirar por dentro – não por razões arquitetónicas, apenas, mas igualmente pela atmosfera que o mobiliário e a decoração propiciam. Cruzamo-nos no andarilhar com mulheres acarretando varas arqueadas sobre os ombros. Caminhando longo do rio, povoado de barcaças com bandeiras vermelhas, vamos até lá ao fundo, ao mercado, trocar um sorriso com a vendedora de flores-de-lótus. Voltamos por caminho diferente, paralelo, que passa por um templo taoista, até chegarmos à ponte japonesa. Aí perto avistamos uma placa a lembrar que estamos na velha Faifo. Foi com esse nome que apareceu nas páginas da “Peregrinação” e era dessa forma que o porto era conhecido entre os muitos mercadores que por esses tempos aqui faziam escala. Por Hoi An andaram também outros portugueses que pela Ásia se maravilharam com os mundos que diante dos seus olhos desfilavam – e muitos vietnamitas ainda o recordarão, sobretudo os descendentes de gente evangelizada. Não apenas: há quem saiba muito bem que o pioneirismo na romanização da escrita vietnamita se deve a um jesuíta português, Francisco de Pina, que nesta parte do Vietname, nos preâmbulos do século XVI, assentou arraiais durante algum tempo. A propósito, celebra-se neste biénio 2015/2016 os 500 anos de amizade Portugal – Vietname, com iniciativas em ambos os países. Em Portugal, o programa é da responsabilidade do Centro de História de Aquém e Além Mar, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (mais informação em http://www.fcsh.unl.pt/media/noticias/portugal-e-vietname-500-anos-de-amizade).

 

Hanói: breve guia para dar corda aos pés

Da cidadela imperial de Hanói não resta muito – os franceses a deitaram, colonialmente, por terra. Mas é mesmo ao lado das muralhas sobreviventes de Thang Long que mergulhamos na zona mais antiga de Hanói, o bairro histórico Phô co Hà Nôi, um labirinto de ruas e vielas pleno de animação comercial que, embora já pouco evoque na sua organização os tempos em que era designado por “bairro das 36 ruas” (de acordo com a distribuição das actividades profissionais), consente ao viajante o devaneio de se sentir embarcado numa espécie de máquina do tempo. O conhecimento do bairro, que fica à distância de uma breve caminhada até ao Rio Vermelho, requer movimento e deriva até à desorientação, que é por estas bandas uma experiência sempre parteira de bons momentos (a capital vietnamita é suficientemente segura para este tipo de “aventuras”), mas outra fruição essencial do Phô co Hà Nôi passa por “perder” uma tarde a saborear cerveja artesanal num (ou em vários) dos pequenos bares da zona boémia ou deambular, porta a porta, à procura dos renomados petiscos da comida de rua da capital.

Hanói é habitada por uma série de lagos – o mais central é o Hoàn Kiém, mesmo à beira do bairro histórico e do palco das famosas marionetas de água. Os museus mais interessantes não ficam longe: por exemplo, o Museu Militar, com o familiar reportório patriótico, e o Museu da Mulher Vietnamita, notável narrativa sobre o papel das mulheres vietnamitas na resistência. Um pouco mais adiante, seguindo a Trang Thi, vamos dar ao Van Mieu, o chamado Templo da Literatura, antigo santuário dedicado a Confúcio. Para trás, num dos flancos da Trang Thi, ficou a mal afamada prisão de Hoa Lò, agora convertida em museu evocativo das agressões francesa e norte-americana, embora a dita não se livre, também, da reputação de ter sido cenário de tortura dos ocidentais inimigos de Hanói.

Para quem goste de dar corda aos sapatos, Hanói é uma cidade com qualidades e não muito extensa na sua parte mais atrativa, entre o Rio Vermelho, o lago Ho Tay e a zona do mausoléu de Ho-Chi-Minh e do popular pagode que assenta num único pilar: longas avenidas arborizadas, algumas em diagonal para se abreviar caminho, e, principalmente, tendo em conta que se está no Oriente, com placas toponímicas em caracteres romanos, os tais introduzidos pelo nosso Francisco de Pina.

Pense-se agora num interregno imposto aos passeios urbanos, a partir de Hanói, e o viajante terá dificuldade em escolher: ou as montanhas e os trilhos de Sapa, mais a norte, à vista de terraços usados no cultivo do arroz, ou o litoral do Mar da China e a paisagem assombrosa de Ha Long com os seus cumes cársticos refletidos num espelho de águas verde-esmeralda – ou azul-turquesa, consoante os caprichos da luz. Ambas as opções têm vindo a tornar-se muito populares entre os viajantes que escolhem o Vietname como destino.

 

 De Angkor ao reino das águas do Tonlé Sap

Culminar uma jornada por terras do Oriente em Angkor é um privilégio, como terá pressentido também o português António da Madalena, o primeiro europeu a visitar o lugar, no final do século XVI. A antiga capital do reino khmer é, com todos os seus templos e estruturas (que incluem redes de canais, diques e reservatórios, e constituem em alguns casos notáveis feitos de engenharia), um dos maiores recintos arqueológicos do mundo – e um dos mais visitados, facto que tem, aliás, gerado apreensões quanto às consequências do crescimento exponencial do turismo. Talvez não esteja longe o dia em que o acesso se veja condicionado, como acontece actualmente em Macchu Pichu, no Peru.

Testemunha dos anos de ouro da civilização khmer, Angkor reflete a transição do hinduísmo para o budismo theravada em terras cambojanas, durante os séculos XIII e XIV. A arquitetura é predominante de influência hindu, mas outras contribuições se fundiram nessa mestiçagem. Os templos são hoje espaços de peregrinação budista, sobretudo Angkor Vat, considerado a maior estrutura religiosa do mundo e só por si requerente de largas horas de dedicada visita. Tal como o templo de Bayon, Angkor Vat acolhe muitos exemplos de um delicado trabalho escultórico em baixo relevo que reproduz divindades e inumeráveis figurações de apsarás, as celestes e sensuais dançarinas do imaginário dos livros sagrados do hinduísmo e do budismo.

 

 

O viajante encontra no interior do Camboja incontáveis razões para mais do que uma viagem. Uma delas é a imersão numa ambiência rural onde a gente local contempla os forasteiros com inolvidável hospitalidade. Outra razão para se viajar por ali é o imenso lago Tonlé Sap, classificado como Reserva da Biosfera, e o seu peculiar ecossistema. É um universo invulgar, de muitas aldeias flutuantes, de casas assentes em altas paliçadas e modos de vida muito próprios, especialmente no tempo da monção. Frei Gaspar da Cruz observou, no seu “Tratado em que se contam muito por extenso as cousas da China”, certas características espantosas, como a inversão das águas do rio Tonlé Sap, um afluente do Mekong, fenómeno que Camões também aflora no Canto X de “Os Lusíadas”. E de outros achados cuidou igualmente o frade de dar conta, para que em terra portuguesa se tivesse notícia das coisas maravilhosas que povoavam tal reino: “… alaga todas as terras de Camboja, pelo qual não se anda toda a terra no tempo destas cheias senão em embarcações, e as casas fazem-nas todas de sobrados altos, e todas por baixo se alagam, e acontece muitas vezes ser a enchente de maneira que lá é necessário fazer caniçadas mais altas…”.

Humberto Lopes

 

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