Entrevista

Apostar na economia social, revitalizar o turismo sénior, aliar a cultura popular à inovação e encontrar novos caminhos para o desporto-aventura são alguns dos propósitos manifestados pelo presidente da Fundação Inatel.

 

Natural de Glória do Ribatejo, Francisco Madelino explica como as suas raízes o influenciam na vontade de abrir os horizontes a uma instituição com passado, presente e futuro. O contexto onde nasceu e viveu ajudou-o a compreender que o melhor do mundo poderá também ser o seu contrário: “A comunidade onde nasci é o exemplo do melhor da capacidade humana em agir, criar e sobreviver, em solidariedade. Foi também, contudo, um exemplo menos positivo, duma comunidade fechada, sobretudo ao ‘outro’, castradora da ambição, da procura da diferença e da mudança.” Nesta aprendizagem da vida adquiriu o conhecimento de que se deve inovar para unir as gerações.

 

Qual foi a principal motivação que o levou a aceitar o convite para presidir à Fundação Inatel?

Tenho trabalhado e investigado, toda a minha vida, nas áreas do trabalho e das políticas sociais. Normal o convite, portanto, pelo percurso onde tenho construído as minhas competências. Foi normal, assim, ter aceitado. Fiquei lisonjeado e motivado pela história da Inatel.

 O Conselho de Administração tem um caderno de encargos para o triénio. Quais são as prioridades?

 A principal prioridade é a de estar à altura da história de oito décadas da instituição. Para o futuro, as missões essenciais deste Conselho de Administração são as de aumentar as receitas próprias, de forma a garantir a sua sustentabilidade; recuperar o papel que já teve no turismo sénior, em complementaridade com a Segurança Social e o Ministério da Economia, fomentando o emprego e o lazer nas épocas baixas hoteleiras, incluindo a privada; ser capaz de desenvolver novos clusters culturais, que articulem a cultura popular à mais experimental e inovadora; encontrar novos domínios do desporto-aventura ligados à preservação do ambiente, à diversidade cultural nacional e ao nosso riquíssimo património histórico. A estas áreas junta-se, ainda, o objetivo de tornar a Fundação uma organização, nacional e internacional, incontornável no turismo e economias sociais. Por fim, aspeto não menos importante, modernizar o seu funcionamento organizacional.

Quem não conhece o dinamismo da Fundação Inatel, com múltiplas atividades para diversos públicos, supõe que é uma instituição vocacionada sobretudo para os seniores. Como alterar esta ideia que ainda existe em algumas franjas da nossa sociedade?

A ideia de que é uma instituição que apenas se ocupa do lazer dos seniores reformados é errada. Nas atividades desportivas, por exemplo, há milhares de jovens envolvidos, desde o futebol aos desportos como o BTT e o Trail. Também é o caso das atividades culturais, não apenas as desenvolvidas pelo Teatro da Trindade, mas sobretudo as que ocupam milhares de pessoas que fazem parte dos inúmeros grupos de folclore ou bandas de música, onde a relação com a Inatel é fortíssima, sendo a principal estrutura nacional pública a elas ligada. Mesmo nos hotéis que possuímos, uma parte significativa daqueles que os frequentam são jovens e pessoas em plena idade ativa. A Inatel tem centena e meia de milhares de sócios. É uma organização intergeracional. Para alterar aquela representação errada, não necessariamente negativa, devemos sobretudo divulgar a verdadeira realidade; incentivar novas atividades de desporto-aventura, que tenham uma componente ambiental e de diversidade cultural fortes; sermos mais inovadores na dinamização das atividades culturais, que saibam ligar a tradição à contemporaneidade e ao futuro; entrar em dinâmicas modernas e atuais dos alojamentos de lazer.

Na entrega do Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio 2015, realizada no início deste ano, no Teatro da Trindade, afirmou que a Fundação tem “uma missão importante em todas as matérias relacionadas com a economia social”. De que modo a Inatel poderá apoiar a dinamização da economia social do país?

A economia social compõe-se de um conjunto de fornecimento de bens e serviços, com forte pendor social, em ambiente de mercado, mas sem o objetivo do lucro, afetando-se as receitas a essas finalidades. Ora, a Fundação é talvez a organização social em Portugal com maior intervenção em mercado, no terceiro setor. Temos de continuar a encontrar novos produtos e serviços, sobretudo nas áreas que cruzem o desporto, a hotelaria e o lazer com a riqueza ambiental e a diversidade cultural do país. Devemos fazê-lo, também, em relação com organizações congéneres europeias, que desenvolvam a sua atividade no âmbito da economia social e da relação com o mundo do trabalho.

No ano do 42.º aniversário da Revolução de Abril, esta instituição octogenária, criada durante a vigência da ditadura, continua a renovar-se em pleno regime democrático, prosseguindo a sua matriz solidária. Que projetos considera essenciais  implementar no plano social?

A renovação da Democracia é na ligação à sustentabilidade ambiental, à preservação da diversidade cultural nacional, à solidariedade intergeracional e à promoção da inserção social dos grupos que não tiveram ou têm menos oportunidades. Aí se deve encontrar o âmago da nossa intervenção e do lazer por ela propiciada.

Em 2016 celebra-se o Ano Internacional para o Entendimento Global. Qual o contributo da Inatel para promover a compreensão entre os povos, através das diferentes atividades turísticas, culturais e desportivas?

O mundo está perigoso. Os choques civilizacionais e religiosos estão aí presentes. Portugal foi um dos países que mais soube ligar culturas e religiões, embora, também em certos momentos, com grande tensão. Soubemos, contudo, entender os erros e encontrar soluções. Divulgando a nossa cultura cosmopolita, com presença planetária, em relação com esses povos, no espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde participamos ativamente, encontrando formas de cooperação cultural, desportiva e turística, é aqui que a contribuição pode ser ativa para esse diálogo intercultural.

É natural de Glória do Ribatejo. A Lezíria também o inspira para trazer novas ideias e concretizá-las nesta instituição?

Sou natural duma aldeia culturalmente rica, com ideias e valores muito próprios e assertivos, com artes e hábitos muito originais, mantidos durante séculos pelo seu isolamento geográfico e pela sua matriz mediterrânica e árabe muito marcada, endogâmica e radicalmente autodefendida. A comunidade onde nasci é o exemplo do melhor da capacidade humana em agir, criar e sobreviver, em solidariedade. Foi também, contudo, um exemplo menos positivo, duma comunidade fechada, sobretudo ao “outro”, castradora da ambição, da procura da diferença e da mudança. Saber renovar a tradição cultural, ligando o passado ao futuro, com valores de ética social e de solidariedade intergeracionais fortes, mas ao mesmo ter a consciência que o enconchamento social e cultural é fonte de medo, de pouca inovação e de pouca abertura ao risco, logo limitadora do sentido empreendedor humano, ensinou-me que instituições nacionais, como a Fundação, devem sobre o passado inovar; devem ligar e não separar gerações; devem encontrar nas culturas, no diálogo entre elas, na educação antidogmática, no ambiente e na história, as fontes que alavancam o futuro e podem modernizar Portugal.

Como ocupa o seu tempo de lazer?

 Desde o início da adolescência tenho tido uma atividade cívica muito forte, nomeadamente, na academia, na política, na investigação, na cultura e no desporto. Como lazer propriamente dito, sobretudo leio muito, faço BTT, agora não tanto como gostaria, e descubro na agricultura, relaxante e nostálgica, um espaço de encontro com a natureza e os territórios e as árvores que fazem parte de mim.

Sílvia Júlio e Teresa Joel