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Uma língua que une pátrias

Há 250 milhões de falantes de língua portuguesa – a quarta mais falada do mundo. O TL perguntou a Guilhermina Jorge, docente do departamento de Linguística da Faculdade de Letras de Lisboa, e a José Mário Costa, jornalista e cofundador do Ciberdúvidas, o que falta fazer para defender e valorizar o português. Quem faz bom uso da língua distingue-se no competitivo mercado profissional, cá dentro e lá fora.

 

Falar português, idioma oficial também em Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, faz parte da nossa identidade. “Da minha língua vê-se o mar” – disse Vergílio Ferreira, na cerimónia em que lhe foi atribuído o Prémio Europália (Bruxelas), em 1991. Os séculos passam. Tudo mudou nos países da lusofonia. O que permanece é o idioma que nos une. “Temos de cultivar a língua portuguesa. É o nosso mais poderoso potencial. Uma influente afirmação no mundo. Para isso é preciso que os portugueses defendam e imponham o português. Uma coisa é ter a língua portuguesa neste pequeno retângulo, outra é tê-la em África e no Brasil”, afirma o jornalista José Mário Costa.

O responsável editorial do Ciberdúvidas – serviço gracioso, de acesso universal, dedicado à língua portuguesa – reconhece que uma das características das nossas elites, e profissionais de comunicação social, é “o uso e abuso do inglês, em detrimento do idioma nacional”. Há uma excessiva utilização de anglicismos. Ao contrário dos brasileiros, que optam pelo aportuguesamento dos estrangeirismos entrados no léxico comum. Preocupam-se com o que é escrito e falado para que todos compreendam eficazmente a mensagem. “Em Portugal, não o fazemos, muito por snobismo. Há jornais que até têm secções em inglês, por exemplo Lifestyle, como se os seus leitores fossem anglófonos”, sublinha.

Na perspetiva deste jornalista falta uma autoridade da língua no nosso país. “Em Portugal, temos uma Academia das Ciências, sem qualquer relevância em matéria linguística. O Brasil tem uma Academia de Letras, com uma intervenção ativa e persistente no primado do português sobre o inglês. O país vizinho promoveu a criação da Fundação do Espanhol Urgente, com recomendações de carácter oficial aos órgãos de comunicação social de Espanha e da América Latina de expressão castelhana, em articulação com as respetivas academias, sobre as novas palavras, nomes e expressões que entram no espanhol pelo inglês. Razão? Um sentido estratégico para com a sua língua nacional – muito longe do que acontece entre nós.” É na identidade de uma língua que o país e os seus falantes se afirmam no mundo.

A professora da Faculdade de Letras, Guilhermina Jorge, acrescenta: “A Academia Francesa, desde a sua criação por Richelieu no século XVII, tem um papel fundamental enquanto elemento regulador da língua francesa. A Academia constitui uma espécie de barreira à entrada de estrangeirismos e, sobretudo, de anglicismos.”

Pior do que errar é repetir o erro

José Mário Costa, também autor do programa de televisão Cuidado com a Língua!, considera que os jornalistas “para exercerem condignamente a profissão”,  devem ter bons conhecimentos de português. “Porque a língua é, afinal, o seu principal instrumento de trabalho”. E porque os erros se reproduzem facilmente. “Pior do que errar é a repetição do erro. Só uma absoluta insensibilidade para com a sua própria língua explica que haja jornalistas escrevendo como lhes apetece, sem procurarem confirmar o que escrevem. Ou o que falam, no caso do audiovisual. O rigor no exercício da profissão passa também pelo domínio da escrita e da linguagem.”

O jornalista recorda que no início da sua carreira ninguém se inibia de perguntar abertamente, sobre uma dúvida momentânea, aos veteranos. “Hoje, parece que há vergonha de, com essa atitude, se alardear ignorância – quando, afinal, ter dúvidas é sintomático de querer saber.” E aponta uma explicação: “Com o desaparecimento dos revisores e, posteriormente, com a crise dos jornais, a dispensa gradual dos copidesques [profissionais com atribuições mais alargadas do que os revisores], as gralhas e os erros passaram a ser, desgraçadamente, uma ‘marca’ dos media portugueses.” Um contraste claro com a situação no Brasil. Por exemplo, na TV Globo há uma consultora linguística sempre disponível para esclarecimento das dúvidas dos jornalistas.

Guilhermina Jorge, por sua vez, diz: “Os linguistas poderiam fazer parte das equipas de redação dos meios de comunicação social. Poderia ser um linguista, um revisor, um consultor linguístico ou um amante da língua portuguesa.” Mas refere, ainda, “o mais importante é que a reflexão, o pensamento e o esforço estejam sempre presentes quando falamos de língua e de escolhas linguísticas”.

Apesar das incorreções ortográficas e gramaticais que lemos e ouvimos, “podemos comparar a língua a uma sinfonia, cuja realidade é independente da forma como a executam; os erros que possam cometer os músicos que a tocam de modo nenhum comprometem essa realidade”, escreveu Saussure, considerado o ‘pai’ da linguística moderna. 

Defender a língua

Para a linguista valorizar a língua passa por “criar uma paixão; motivar a leitura e a escrita desde tenra idade, para educarmos jovens respeitadores da língua, dos livros, e da identidade com o próprio país; estabelecer parcerias com editoras, empresas culturais, teatros, jornais … e mostrar aos jovens o papel da língua na sociedade”. Guilhermina Jorge indica um caminho: “A escola tem de sair das suas fronteiras, virar-se para a sociedade e criar um diálogo aberto com os intervenientes e utilizadores da língua em termos profissionais, apelando para a criatividade, indo ao encontro de escritores, poetas, jornalistas, teatro, música, artes, mostrando que é a língua que está na interface do conhecimento. Uma língua múltipla, como diz Herberto Helder...”.

O domínio da língua portuguesa é essencial não apenas na comunicação social, também o deveria ser em todas as escolas, empresas e instituições. Saber falar e escrever corretamente português merece mais valorização no mundo laboral. “No Brasil – lembra José Mário Costa –, os candidatos a qualquer concurso público têm de prestar provas de português relativamente exigentes. Daí a existência de uma verdadeira ‘indústria da língua’, com a proliferação de cursos, presenciais ou via internet, sobre regras gramaticais, da sintaxe à pontuação.”

Em Portugal o que falta fazer? “Motivar e formar jovens mais competitivos em língua portuguesa, através de atividades que lhes mostrem que a língua e o seu perfeito conhecimento constituem elementos fundamentais para a sociedade e para o mercado de trabalho”, responde a linguista.

No título de um texto de Saramago, publicado no Ciberdúvidas, as palavras do Nobel da Literatura portuguesa continuam a fazer eco: “Uma língua que não se defende, morre.” Mais do que um defensor, o falante tem a missão de perpetuar a expansão da língua, valorizando palavra a palavra, cada verso e reverso da sua identidade.

Sílvia Júlio e Teresa Joel