Reportagem

O arquipélago amável

Um périplo por quatro ilhas de Cabo Verde – Sal, Santiago, São Vicente e Santo Antão. Ilhas tão diferentes e tão semelhantes ao mesmo tempo, têm elas muito de variado a oferecer ao viajante. E numa qualidade coincidem, a da amabilidade com que recebem os forasteiros.

 

No radiozinho de pilhas do homem sentado numa das mesas do Botequim Boca de Tubarão, no Mindelo, oiço a voz de Cesária cantando uns versos de Amílcar Cabral: “Mamãe velha, venha ouvir comigo / O bater da chuva lá no seu portão / É um bater de amigo / Que vibra dentro do meu coração / (…) A chuva amiga, mamãe velha / A chuva que há tanto tempo não bate assim... / Ouvi dizer que a Cidade Velha — que a ilha toda — / Em poucos dias já virou jardim...”. O poeta, que nasceu em Bafatá, na Guiné-Bissau, passou parte dos seus verdes anos nas ilhas de Santiago e São Vicente, e foi justamente no final da sua adolescência que Cabo Verde viveu uma seca com consequências gravíssimas, tanto quanto ao número de vítimas quanto à diáspora que provocou.

As ilhas – desabitadas quando os navegadores portugueses lá aportaram pela primeira vez –, já padeciam de tal mal há séculos. Áridas e montanhosas na sua maior parte, de transitar difícil, surgiam nas crónicas da época com um retrato nada favorável. Duarte Pacheco Pereira assinalava que “os frutos não se dão nesta terra senão de regadio porque aqui não chove senão três meses no ano” e que as ilhas “são terras altas fragosas e más de andar”.

O poema de Cabral fala de um fenómeno ingrato no arquipélago – a seca – e da afabilidade e ternura com que a chuva é recebida. Intrigado o viajante com este mistério, que é o de terra tão rude ter engendrado tão amável gente e cultura, põe-se a pensar, no sossego do Botequim Boca de Tubarão, quão valioso seria o assunto para estudo desses académicos que tudo pretendem explicar e catalogar. Mas quantos volumes seriam necessários para compreender esta doce fé posta nos voláteis milagres da esperança? “Dizem que o campo se cobriu de verde / Da cor mais bela, que é a cor da esperança / Que a terra agora mesmo é Cabo Verde / É tempestade que virou bonança…”. E pronto, foi a despedida do radiozinho: o homem calçou as sandálias que tinha empurrado para debaixo da mesa, bebeu o último gole de grogue e abalou com um sorriso.

Passear em calçada portuguesa

Até à construção de um novo aeroporto internacional na ilha de Santiago, o Sal era a porta de entrada do arquipélago. Quem planeasse itinerários de cariz cultural, ou uma imersão na vida social do país, metia-se noutro avião; para os que voassem apenas na mira do turismo balnear em águas cálidas e areias douradas, estava a jornada cumprida. 

A ilha do Sal é sobretudo isso, um destino privilegiado para um intervalo na agitada vida contemporânea e para mergulhar num “dolce far niente”. O mar (e as actividades com ele relacionadas, o mergulho, os desportos aquáticos, o windsurf, etc.) é quem mais tremeluz (além do sol, claro) nesta pequena ilha em que basta meia hora para se ir de uma ponta à outra. Fora dos resorts, pouco há para ver ou fazer, a não ser uma excursão ao cenário fantástico das antigas minas de sal na Pedra do Lume. Ou deambular pela capital da ilha, Espargos, povoação um tanto descaradamente descaracterizada, mas autêntica, isso sim, e onde se pode presenciar a vida real da gente da ínsula.

Para sul ficam outras duas ilhas (Boavista e Maio) onde não faltam, também, praias e águas azul-turquesa, e, depois delas, as de Santiago e do Fogo – esta última feita praticamente de uma única montanha, a do vulcão homónimo que só por um triz não chega aos três mil metros. A de Santiago – entre as de mais variada paisagem, juntamente com Santo Antão e São Nicolau – foi a escolhida pelos portugueses de Quatrocentos para capital, por oferecer melhores condições de defesa, por possuir alguns bons portos, pela água doce disponível e por razões geográficas, já que a proximidade do litoral africano era favorável à empresa de o explorar, assim como aos planos lusitanos de desenvolver o infausto comércio negreiro.

Desembarcados na Cidade da Praia, a capital de Cabo Verde, o primeiro passeio costuma levar-nos ao bairro histórico conhecido como “Plateau”, onde residem inúmeros exemplares de arquitectura civil do tempo colonial, de uma forma geral bem conservados e utilizados na actividade comercial, não faltando, até, um bom punhado de lojas chinesas bem populares ali no meio do Atlântico. É um itinerário bastante agradável quanto à revisitação de uma memória arquitectónica da presença portuguesa no arquipélago, desenhado por vezes ao longo de ruelas de calçada de inspiração lusitana.

A primeira cidade portuguesa fora da Europa

Da capital cabo-verdiana até ao primeiro assentamento urbano português construído fora da Europa é um pulo de uma dezena de quilómetros. Antes de se descer para a Ribeira Grande, tome-se o desvio à direita: uma vista geral do conjunto urbano classificado pela UNESCO como Património da Mundial em 2009 pode ser a melhor introdução ao sítio. A umas centenas de metros do cruzamento está o Forte de São Filipe, construído no final do século XVI, durante o domínio filipino, na sequência de um ataque do pirata Francis Drake. Das muralhas da fortaleza, avista-se a Cidade Velha, a primeira urbe portuguesa em África, e ao lado dela o vale fértil que se entranha no interior da ilha. Eis uma das ribeiras típicas de Santiago, que o viajante encontrará noutras paragens, oásis isolados entre paisagem árida, abençoados com nascentes de água doce e povoados de mangueiras, bananeiras, coqueiros, calabaceiras e produção hortícola. Lá em cima, vale a pena a visita ao forte, onde se pode assistir a um interessante documentário sobre o património do lugar.

A partir da fortaleza, e para cortar caminho, desce-se por um caminho áspero até à Cidade Velha e passa-se pela ruína triste da catedral, que não resistiu ao saque pirata de Jacques Cassard em 1712. Desce-se um pouco mais, ainda, deixando o promontório e o seu núcleo de casas modestas, até ao bordo da pequena baía tão cheia de memórias navegantes. No largo vizinho do porto onde as naus de Vasco da Gama fundearam a caminho da Índia, o pelourinho manuelino jaz à sombra de meia dúzia de palmeiras, lembrando que naquele canto eram açoitados escravos e que ali se escutaram sinistros pregões leiloeiros.

Entrando na ribeira, a caminho das hortas, damos com dois exemplos de arquitectura religiosa que sobraram de um conjunto que chegou a reunir mais de vinte igrejas, capelas e ermidas. Um é a Igreja do Convento de São Francisco, do século XVII; o mais antigo é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos escravos, datada do final do século XV. O templo é singelo, de nave única, com lusitana azulejaria nas paredes laterais e uma pequena capela gótica e manuelina à entrada. Neste templo, reabilitado há duas décadas pela Cooperação Espanhola, pregou o Padre António Vieira, na sua passagem para o Brasil, em 1562, cem anos após a fundação da Cidade Velha.

Uma volta por Santiago revela um território de paisagem muito variada, com um interior montanhoso, monumental e árido – onde o cenário de gente, mulheres e crianças, sobretudo, transportando água em recipientes de plástico é muito comum –, e algumas atraentes praias, como a da vila do Tarrafal e a do belo areal negro da Ribeira da Prata.

Cultura e excessos cénicos

Ainda que São Vicente seja palco do mais internacional festival de música do arquipélago, o Festival da Baía das Gatas (um aprazível local de lazer, aliás), São Vicente é, sobretudo, o Mindelo, sem desapreço por outros paradeiros e outras gentes. Foi, durante muito tempo a mais cosmopolita cidade do arquipélago e é, historicamente, a capital cultural do país, mantendo um amplo rol de iniciativas ao longo do ano.

Não obstante as secas assíduas e as dificuldades inerentes à localização no meio do oceano, ao Mindelo e aos seus intelectuais, poetas, músicos se “abriram” as portas do mundo, na segunda metade do século XIX, com a transformação da ilha em ponto de abastecimento de carvão dos navios que faziam as rotas transatlânticas, e em estação intermédia da rede de cabos submarinos do Telégrafo Inglês. O centro histórico desta bela cidade atlântica, em arco sobre uma graciosa baía, reflecte esses tempos decisivos para a identidade da cidade, conservando um património arquitectónico de influência inglesa e portuguesa e uma leva de espaços culturais de divulgação das expressões artísticas vicentinas.

Já Santo Antão, a uma hora de viagem de barco, é uma ilha em que a natureza reina, mesmo se a mão humana a transformou em terra produtiva e onde não raro avistamos funâmbulos bananais suspensos em socalcos lavrados nas vertentes montanhosas. Santo Antão, mais do que qualquer outra ilha do arquipélago, é um lugar de grandes excessos cénicos e um palco onde assistimos ao milenar drama da luta com os elementos naturais.

Cada ilha tem seus dons, com que se alimentam as quimeras dos viajantes: ora céus azuis e mares azul-turquesa, ora património cultural e arquitectónico; para outros, outras modas e motivações. No caso de Santo Antão, as caminhadas e os trekkings têm atirado a ilha para os escaparates do ecoturismo – é a ilha mais montanhosa, de assinalável variedade cénica, uma ilha onde os velhos caminhos rasgados nas encostas das montanhas (o pico mais alto quase chega aos 2000 metros), calcorreados agora por caminheiros de todo o mundo, oferecem soberbas vistas para o Atlântico, além de proporcionarem uma observação das gentes e dos seus modos de vida, da sua cultura profundamente ligada à terra. E de permitirem testemunhar, em primeira mão, a extraordinária hospitalidade local, uma faceta da afamada morabeza.

Manuel Lopes, inspiradíssimo retratista das gentes e das paisagens de Santo Antão, legou-nos páginas admiráveis sobre a beleza dos luxuriantes vales e ribeiras da ilha: “... os caminhos perdidos nos cabeços das montanhas envolventes, ziguezagueando nas vertentes ásperas, descendo e subindo as margens íngremes das ribeiras, sumindo-se nas chãs por entre os rabos-d'asno e barbas-de-bode... O vale é uma orquestra de mímicas e trejeitos, com a sua música e zumbidos estridentes, chilreios, conversas atrás de muros, cacarejos domésticos, sons surdos de enxada rasgando a terra...”

Humberto Lopes

 

Viagens Inatel

Cabo Verde – Circuito na terra da morabeza

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Preço por pessoa desde: 1.665 €

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