Memórias

Luis Miguel Cintra

A surpresa num vagão

Descobrimos a viagem que mostrou novas realidades ao conceituado ator e encenador. De Paris para Lisboa num comboio cheio de emigrantes. O regresso a casa num vagão que lhe deu outro mundo.

 

Meados da década de sessenta. Luis Miguel Cintra tinha terminado o liceu. Foi com o colega e amigo Nuno Júdice para Paris. Durante um mês quis fazer um curso de História de Arte no Louvre. Todas as manhãs, na cidade-luz, deixava-se iluminar por traços e figuras feitas por pessoas que representaram a vida humana e as paisagens da vida.

A vida é a construção de um caminho. Que só se compreende depois de ter sido percorrido. Vontades, circunstâncias, reações aos acontecimentos, passos que se dão até se chegar lá. Palavras trocadas, experiências contadas, sensações partilhadas. Só depois de falarmos de outros itinerários e de termos mudado o rumo da conversa é que chegámos lá. Por vezes é preciso ir por novos percursos para se encontrar o tal caminho. Foi assim que se encontrou a viagem de Paris a Lisboa, o regresso a casa.

Era 1 de agosto, o dia em que muitos emigrantes voltam à terra que um dia deixaram em busca de uma existência melhor para si e para os seus. Cintra tinha comprado o bilhete para Lisboa. Tinha lugar reservado naquela viagem. Mas quando entrou no comboio já não havia números para ordenar os passageiros. As marcações dos lugares foram arrancadas. “O comboio estava com o dobro das pessoas que podia levar. Havia malas por todo o sítio. Fui até à fronteira espanhola sem me conseguir sentar uma única vez.” Não havia sequer a possibilidade de ir à casa de banho. Ninguém conseguia sair do exíguo espaço que ocupava. Viu um homem, aflito, a ter de fazer as necessidades fisiológicas num local inesperado, depois de uma mulher lhe ter gritado: “Ó homem mije pela janela!” 

“Num sítio civilizado seria má educação, mas esta liberdade de comportamentos, para mim, funcionou como uma coisa boa, sobretudo, por ter havido pessoas capazes de dizer uma frase assim. Gente que perdeu a vergonha, porque a situação era mais grave do que os hábitos do mundo.”

“Nesta viagem”, acrescenta, “tive o prazer enorme de viver momentos com referências culturais e hábitos novos para mim. Conheci os emigrantes daquela época que partiram para França com a ideia de ganharem alguma coisa e voltarem a Portugal com mais dinheiro para aqui terem uma vida possível. Convivi com eles de igual para igual. Se eu tivesse reagido mal, teria sido uma coisa horrível. Esta foi uma das viagens mais importantes que fiz, porque se passou algo de extraordinário que se tornou num momento de vida potencializado e me trouxe conhecimento de outras pessoas, de maneiras de funcionar que nunca tinha visto – trouxe-me coisas novas.” Há instantes que ajudam a compreender melhor o ser humano, a ver no outro e em nós a capacidade de superação, de quem dá mais do que se está à espera que se dê. Sente curiosidade pelos outros. Deixa-se surpreender. E transporta consigo o movimento das pessoas.

Gosta de espaços largos para descansar do vaivém dos dias. Uma vez, um colega espanhol disse-lhe que tinha mudado para um apartamento no 14.º andar, onde “tem muito céu”. É nesta afirmação que ele também se reconhece. Gosta de paisagens sem horizontes: “Adoro sentir-me nas estradas que ligam a fronteira portuguesa a Madrid. As estradas da Estremadura e de Castela são retas e retas de searas. Se não estou a guiar, divirto-me imenso a fazer fotografias de nuvens – tenho uma coleção delas. As nuvens têm formas misteriosas que nos projetam para um trabalho de imaginação e ausência de limites.”

Quando olha para o céu sente-se livre. Talvez seja por isso que fale também num lugar, terreno, onde gostasse de estar sem a sujidade do mundo civilizado. “É o ideal dos eremitas. É o simples, desde que tenha o que comer, sinta o sol, esteja confortável e sem dores. Que seja um eixo de contacto com a própria natureza exterior, menos filtrada pelos aquecimentos elétricos, o micro-ondas, a televisão, etc. Sem nada dessas coisas que são o mundo do consumo.” Menos é mais. E é nesta simplicidade que quer caminhar. Em todas as viagens da vida.

Sílvia Júlio