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Lídia Jorge

“Trocaria a minha alma por um livro...”

Sol de inverno. Memórias. Passeios nas margens do Sena. Verdades líquidas. Ver pessoas reais, inteiras, verticais. Amantes e amados feitos de letras e artes. Leituras infinitas. Páginas soltas.

A revista francesa Le Magazine Littéraire, em 2013, incluiu Lídia Jorge entre as “10 grandes vozes da literatura estrangeira”. A sua voz entra no maravilhoso reino dos livros, com O Vento Assobiando nas Gruas, perto d’A Costa dos Murmúrios, para sonhar O Dia dos Prodígios, porque com ela também Combateremos a Sombra.

Autora amplamente distinguida com prémios literários, nacionais e internacionais, tem uma vasta obra que se encontra traduzida em muitas línguas e países. Vamos ao seu encontro para ouvir que “os livros também servem para anunciar novos tempos”.

 

O jardim que lhe pertence situa-se no real ou no imaginário?

Mal de quem não tem um jardim que lhe pertence. Mal, também, se esse jardim não possui uma álea na realidade e outra na imaginação. Só sobrevivemos porque andamos por esse caminho duplo. O meu jardim real é feito das árvores da minha infância, dos caminhos circulares da adolescência, e das partes do mundo que depois me foi dado conhecer. No jardim do imaginário está a Literatura, essa região do espírito, tão larga que nela se espelha a vida inteira, desde que os homens falam. Existe nela todo um jardim sem limites.

O que podemos encontrar n’O Jardim Sem Limites?

“O Jardim sem Limites” é o título de um livro que parte precisamente dessa ideia, de que existem jardins sem limites na nossa imaginação. O livro, porém, fala do confronto entre a ausência de fronteiras no domínio do desejo e os limites que nos cercam, tanto no plano da nossa vida privada quanto no plano da história humana. É um livro construído em forma de rosácea. No final, os protagonistas, um grupo de jovens, amedrontados com o que se passa na rua, dormem numa mesma cama para afastarem o medo de que o anjo da destruição os atinja. Os livros também servem para anunciar novos tempos.

Que caminhos foram necessários percorrer para chegar lá?

 Lendo sobre o passado e abrindo a imaginação ao futuro. Na Torah de Bagdad pode ler-se que o futuro está cheio de passado. Invertendo, percebe-se que o passado, esse presente que está sempre a acontecer, contém em parte o filme do futuro que está para vir. De resto, basta escutar o tempo.

Numa entrevista publicada na revista francesa Télérama, em 2015, disse: “Escrever é praticar a grande medicina da alma.” Precisa de tomar diariamente doses homeopáticas de reflexão para curar os males da vida?

As minhas doses homeopáticas são sobretudo feitas de suplementos de vida. Depois é que vêm as doses de reflexão. Narrar é isso mesmo, juntar os dois suplementos. É uma questão de temperamento. Eu não nasci para pronunciar em voz alta. Julgo, Penso, Avalio, Sei. A minha forma de pensar, reflectir ou julgar começa pela fórmula primordial de discernir que tem por início do pensamento, Era uma vez, mesmo quando não fica escrito. Nada de mais revigorante, mais cheio de futuro e de esperança do que iniciar uma narrativa. Wim Wenders, no filme “As Asas do Desejo” cria uma voz para Homero que diz – “Devo desistir? Se eu desistir, então a Humanidade irá perder o seu contador de histórias. E com ele a própria Humanidade irá perder a sua infância.” Não se deve desistir desse propósito. Narrar, ou ler narrativa, é não deixar que a nossa infância desapareça. É prolongar nessa infância pessoal a infância do mundo inteiro.

Joaquim Pessoa escreveu: “Sou apenas um escritor. Um cultivador. Um jardineiro. Um florista. A minha felicidade flutua entre o estrume que deponho na raiz das palavras e o aroma que me excita quando acabo de as colher.” Por onde flutua a sua felicidade?

É muito bela a síntese de Joaquim Pessoa. Não sei dizer melhor. Também padeço da mesma oscilação, entre estrume e aroma. Os românticos já o disseram nos séculos passados. Eles foram à essência desta função e nada há a acrescentar. De resto, tudo o que posso dizer sobre o tema já o disse – Trocaria a minha alma por um livro. Um livro onde eu atingisse o rasgão no tempo que procuro. Nessa procura flutuam, lado a lado, frustração e felicidade. Nunca se chega lá, mas o caminho é, por si mesmo, o grande fim.

Os cravos de Abril foram suficientes para disseminar as sementes de liberdade?

Os cravos de Abril continuam tão viçosos que os jovens desconfiam dessa longevidade, e os tomam por flores de plástico. Mas não são. Têm as pétalas vivas no coração da geração que andou com eles na rua, e na vida dos que vieram depois e não sabem quanto do seu próprio perfume é obra dessas flores. Não há como comparar o que era antes e o que veio depois. Vivemos em liberdade.

O que falta, ainda, florir em Portugal?

Infelizmente ainda falta muito para termos justiça e para termos equilíbrio social. Viemos de muito longe na pobreza, na ignorância e no medo de mostrarmos a opinião em público. Ainda temos medo. Acredito que uma reviravolta irá acontecer. Os jovens de hoje não tomarão as mesmas flores, porque elas já não lhe parecem naturais. Já que estamos nas metáforas dos jardins, eles irão encontrar uma nova espécie que seja sua, e possa completar o que está por fazer, sem desfazer o que de melhor foi feito.

Existindo uma árvore que poderia representar as suas memórias de África… Qual seria? E que palavras, cores e fragrâncias estariam associadas?

Existia um pequeno livro da Maria Rosa Colaço que se chamava “Onde Crescem as Papaieiras”. Essa também é a minha árvore de África. Tem um pé longo, fino, cinzento, ramos só no alto, formando uma espécie de guarda-sol aberto, e junto dessas ramos em forma de varetas, pende um colar de frutos. Frutos unidos, verdes, apertados uns contra os outros. Durante meses, eu passava junto de um renque de papaieiras e não sabia que nome tinham, tão pouco que aqueles frutos gordos eram as papaias que diariamente me serviam de pequeno-almoço. Um dia, quando amareleceram, pus-me a olhar e foi uma descoberta. Aquelas árvores eram as mães daqueles frutos amarelos por fora, quase vermelhos por dentro, cheios de sementes que eu abria no meu prato. Ainda hoje sinto um sobressalto por esse reconhecimento tardio. Uma dívida para com as árvores, para com a terra e os seus nomes. Longe dessas árvores continuo a abrir, pela manhã, uma papaia. Ela vem de longe, vem vermelha e sumarenta, vem da cor do pôr-do-sol de África, lá, onde eu não vou faz tempo, mas onde parte do meu coração estará para sempre. Penso na papaieira e um pedaço da terra treme.

Teresa Joel

[Por vontade da escritora o texto é publicado de acordo com a antiga ortografia]