Ficções

Fugas

Cinco minutos antes das quatro da madrugada, Acácio Bruno acordou de um pesadelo: sonhara que tinha uma forma de lobo. Uma vez acordado reparou que, na realidade, o estômago dava sinais de uma fome de lobo. Estendeu um braço para acordar Nivolina e lhe contar de tão estranha coincidência. Surpresa: viu-se sozinho na cama, o lugar de Nivolina era um vazio intrigante.

À mesma hora, Leopoldo Ercílio acordou de um pesadelo. No pesadelo, doía-lhe a barriga. Desperto, observou, espantado, que realmente lhe doía a barriga. Quis dizer a Flaviana como se pode sonhar com o que de facto aconteceu, mas de Flaviana nem sinal nos lençóis.

Pelas oito da manhã, Acácio Bruno telefonou ao seu grande amigo e confidente Leopoldo Ercílio para desabafar acerca do desaparecimento de Nivolina. Extraordinário, Leopoldo Ercílio ia também telefonar ao amigo com novidades idênticas.

- Também a tua Flaviana desapareceu? – admirou-se Acácio Bruno.

- Talqualmente a tua Nivolina – disse, desolado, Leopoldo Ercílio.

- Será que – imaginou Acácio Bruno –, fugiram juntas?

- Pelos vistos, sim. Mas nada de confusões: podem ter fugido juntas mas não significa que a Nivolina e a Flaviana tenham um romance – estás a entender-me?

- Estou a entender. Claro que não há um romance entre elas, alto lá, só se decidiram dar por férias os romances que a Nivolina tinha comigo e a Flaviana vivia contigo.

- Exactamente, meu caro Acácio Bruno, a questão é esta: porquê? Mas porquê?

O interpelado fez um silêncio longo e depois disse:

- Custa-me reconhecer, Leopoldo, mas a minha mulher sempre gostou de ti. Não vale a pena esconder. Quem a encanta é um tipo como tu, dado a museus, bibliotecas, música, discos, leitura de filósofos e coisas assim.

- Engraçado, a minha Flaviana chegou a dizer-me: tenho pena, Leopoldo que tu não sejas como o Acácio Bruno, um pouco vadio, é verdade, mas divertido, gozado da vida, leitor incansável de todos os jornais desportivos, amigo das noites com amigos, ele é o máximo, Leopoldo.

- Ai ela disse isso?

- Disse.

- Então, meu caro, o remédio, se elas aceitassem, seria esse: tu ficavas com a Nivolina e eu com a Flaviana.

- Bem visto. O problema, meu filho, é que eu gosto da minha Flaviana e não me interessa a tua Nivolina.

- Ora aí está! Eu também prefiro a minha Novolina, mesmo que ela te preferisse a ti. Portanto, mesmo a dar-se o caso de quererem trocar de marido, nós não queríamos.

- Exactamente. Mas se elas não voltarem para suas casas, estando lá nós, a solução poderia ser sairmos nós das casas.

- Muito bem pensado. E íamos para onde?

- Por exemplo para casa do meu cunhado Eleutério, tem três quartos e vive sozinho desde que a minha irmã Zulmira o deixou.

- Deixa-me pensar.

- Pensar?

- Pois eu penso que não resulta.

- E não resulta porquê?

- Porque quando elas souberem que deixamos os domicílios podem voltar e nós ficamos na rua.

- Na rua?

- Bem vês, não vamos morar tempos infinitos na casa do teu cunhado Eleutério.

- É verdade. E se eu for para a tua casa e tu para a minha e quando elas regressarem te virem a ti em vez de mim e a mim em vez de ti?

- Não quero. Gosto da Nivolina.

- Eu também não. Quero a Flaviana. Não seria capaz de viver com a tua Nivolina, por muito que ela aprecie o facto de eu gostar de música clássica, museus, bibliotecas e leitura de filósofos.

- Como eu te compreendo, Leopoldo. Sensibiliza-me que a tua Flaviana admire o meu gosto pela folia, mas não dava.

- E agora?

- Agora esperemos. É evidente que tanto a Flaviana como a Nivolina quiseram pregar-nos um susto, mas não tarda estão de volta.

- É o que acho.

- Agora supõe tu, caríssimo, que nunca mais se resolvem a voltar aos seus lugares, a Flaviana contigo e a Nivolina comigo?

- Leopoldo Ercílio gastou um tempo a meditar, finalmente respondeu:

- Sabes o que eu acho?

- Não.

- De nunca mais nos procurarem?

- Precisamente.

- Analisando bem a situação, sabes como vejo a hipótese de não voltarem para os nossos braços?

- Diz.

- Pois digo: isso é que era bom.

- Tão bom que não acredito. Mais dias menos dia temo-las à perna.

- Tomara que não.

- É o que eu penso: tomara que não.

Mário Zambujal